“Crianças de até dois anos não podem ter contato com telas, não faz bem, não é indicado”

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“Crianças de até dois anos não podem ter contato com telas, não faz bem, não é indicado”

Raquel Lhullier – Psicóloga com mais de duas décadas de atuação voltada à saúde do sono

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“Crianças de até dois anos não podem ter contato com telas, não faz bem, não é indicado”
(Foto: Arquivo pessoal)

A psicóloga Raquel Lhullier, que atua com crianças e adolescentes há mais de 20 anos, percebe que há uma necessidade das famílias cuidarem mais do sono dos filhos. Com formação em psicodrama e Medicina do Sono pelo Instituto do Sono, a profissional vê que muitos têm uma dificuldade imensa no momento do descanso. Uma das soluções apontadas é a “higiene do sono”, uma série de estratégias que podem ser adotadas que conduzem ao relaxamento na hora de dormir.

Nesses teus 20 anos de caminhada, o que mais te chama a atenção quando o assunto são os desafios da higiene do sono? São os avanços da tecnologia?

O avanço nos trouxe maravilhas. A gente tem muitos benefícios. Mas é uma percepção que eu venho tendo ao longo dessas mais de duas décadas, são os hábitos que nós temos no dia a dia e o quanto pequenos hábitos vão influenciar na noite. Eles vão influenciar no sono da criança também. Esse é um dos grandes desafios: como utilizar as tecnologias ao favor para um crescimento e desenvolvimento saudável das crianças e para que nós todos tenhamos uma boa qualidade de vida? Quando nós estamos muito no automático, muito no automatismo, nós vamos perdendo uma real percepção do tempo, e isso quando a gente fala de crianças mais ainda, mas que afeta o desenvolvimento delas, essa capacidade de se perceber e de sentir. Essa é minha preocupação.

Qual é a idade ou o período que a rotina deve começar?

Tem uma palavrinha que desde que eles são bebês, desde que nascem, é muito importante que a gente tenha em mente, que é a previsibilidade. Então a gente vai construindo desde que eles são bebezinhos. O bebê vai aos poucos percebendo e conforme vai se desenvolvendo, que depois daquele banho morno tem um leitinho e aí tem o sono. Claro que o bebê vai dormir muito, ele precisa dormir muito para o seu desenvolvimento. É importante que seja respeitado o tempo do bebê, o tempo de descanso. E aí, claro, para crianças de todas as idades, a gente precisa considerar esse respeito a essa necessidade fisiológica. Por exemplo, um bebê ter o cochilinho à tarde, nós vamos ter aquela luminosidade lá fora, que ele vai conseguindo construir, discriminar o que é noite do que é dia. Nós precisamos ao longo do tempo e do crescimento termos uma previsão de horário para adormecer e horário para acordar, despertar.

O que de fato seria essa higiene?

O nosso cérebro é muito falante. Ao longo do dia, a gente está sempre construindo diálogos, a gente está sempre recebendo estímulos. Quando vamos nos preparar para ir dormir, muitas vezes vamos nesse automatismo em que o corpo está cansado e o cérebro está superestimulado. Então, a higiene do sono, ele vem para auxiliar em estratégias. Cada família vai trazer para si, uma maneira de desacelerar esse cérebro que está tão falante. E aos poucos ir nessa sintonia entre cérebro e corpo. Se preparando para dormir, para o sono. Então, são várias as práticas que a gente vai realizando para preparar o cérebro para adormecer. São estratégias como diminuir os estímulos externos que podem ativar o hormônio cortisol (hormônio do estresse). Por exemplo: as redes sociais para o adulto. Precisamos reduzir os estímulos quando vamos nos preparando para o momento de adormecer. As telas para as crianças, filmes, vídeos, animações, quanto mais cedo a gente conseguir evitar e diminuir melhor para ir preparando para o momento de adormecer. Um leitinho morno, um chazinho, um momento de leitura para que a gente diminua esses estímulos. Estamos falando dos nossos hábitos enquanto família. Estamos falando sobre interações, porque a gente também precisa desacelerar esse tipo de interação. É uma notícia que a gente recebe ou uma comunicação que alguém nos chama, num horário em que a gente percebe que está exausta. Isso é extremamente prejudicial. E com as crianças também. Então a higiene do sono é um aliado para nos preparar para esse momento de adormecer e para a gente ter uma qualidade de sono ótima. Porque a gente precisa dormir bem para viver bem.

Como é que tu, como profissional dessa área, enxergas essas gerações 100% conectadas?

Crianças de até dois anos não podem ter contato, não faz bem ter contato com telas, não é indicado. Há várias orientações e várias pesquisas, que atestam os malefícios das telas para crianças pequenas. Quando a gente vai ter uma interação com a criança, aí sim a tecnologia se faz necessária. No sentido de chamada de vídeo, falar com parentes, a gente tem aí a tela para ser utilizada. Crianças maiores, a gente tem que cuidar do tempo e do tipo de exposição. A gente precisa se conscientizar de que isso é um aprendizado que, enquanto cuidadores e as crianças, precisamos ter em função da tela. O problema vem quando não se tem bem estabelecido e a criança quer sim e mais. E a gente vê prejuízos no sono, na atenção, no humor. Então, realmente temos que cuidar da idade em que vamos oferecer a tela. Os horários, o tempo de tela, a qualidade e a intenção daquela tela para aquela criança.

E se a criança tem 8, 9 anos e está com as telas e tem dificuldade para dormir, tem como reverter esse quadro?

Tem. Eu sempre penso o seguinte, onde há batalha, onde há luta, vai ter sofrimento. Então vamos nos desarmar no sentido de imposição, ou de determinar, ou de uma exigência nesse sentido. Em muitos casos as famílias precisam buscar ajuda de vários profissionais.

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