Entidades representativas da cadeia do arroz apresentaram à imprensa, nesta quinta-feira (5), o cenário atual do setor no Rio Grande do Sul. As lideranças relataram um período marcado por excesso de oferta, queda de preços, dificuldades de crédito, problemas climáticos recorrentes e falhas estruturais nas políticas agrícolas. Para enfrentar esse contexto, estão sendo implementadas sete medidas, articuladas desde junho de 2025.
Entre as principais ações está a recomendação de redução da área plantada, que já vem sendo adotada pelos produtores, especialmente no Estado. Dados da Conab indicam redução de 1,068 milhão de toneladas, o que representa queda de 12,2% na produção gaúcha em relação à safra anterior. “Dois terços dessa redução estão ocorrendo no Estado, o que mostra que os produtores gaúchos estão fazendo a sua parte”, afirma o economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz.
Para a safra atual, o presidente do Irga, Alexandre Velho, estima que a área plantada fique entre 880 mil e 890 mil hectares, número que deverá ser oficializado nos próximos dias. A produtividade, porém, tende a ser inferior à do ano passado, em razão do aumento de problemas fitossanitários, como maior incidência de arroz vermelho, além do menor uso de tecnologia, reflexo das restrições de crédito enfrentadas pelos produtores.
Outras medidas em andamento incluem a busca por mecanismos de comercialização, como o Prêmio para Escoamento de Produto (PEP) e o Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural (PEPRO); o estímulo às exportações por meio da Taxa de Cooperação e Defesa da Orizicultura (CDO); a proposta de redução do ICMS durante o período de colheita, visando ampliar a competitividade frente ao Paraguai; além da desconcentração dos vencimentos das Cédulas de Produto Rural (CPRs) e do alongamento de prazos de custeio e investimento.
As entidades também anunciaram ações de combate à venda irregular de arroz fora do tipo indicado na embalagem, prática que, segundo a Farsul, distorce o mercado e prejudica produtores e indústrias. Das sete medidas apresentadas, seis já estão em execução.
Produção de biocombustível
Paralelamente, as lideranças defendem a diversificação dos destinos do arroz, com destaque para a produção de biocombustíveis como estratégia de médio e longo prazo. “Não temos dúvida de que, entre 10 e 15 anos, estaremos produzindo 50% – ou algo próximo disso – das nossas áreas para a geração de biocombustíveis”, afirmou o presidente da Federarroz, Denis Nunes.
Segundo ele, o setor avalia o uso do arroz na produção de etanol e em novas finalidades, sem prejuízo ao abastecimento alimentar. A iniciativa é conduzida por meio da Câmara Setorial e da Embrapa Agroenergia. “Esses outros destinos não vêm para retirar o arroz da alimentação, mas para ampliar o seu potencial”, explicou.
O presidente da Farsul, Domingos Antônio Velho Lopes, destacou que os combustíveis naval e aéreo estão entre os mais consumidos no mundo, com perspectiva de crescimento de até 35% entre 2035 e 2040, além da expansão do número de destilarias de etanol no país e da alta eficiência do etanol de grãos.
Exportação e importação
Embora a exportação seja vista como instrumento necessário para reduzir estoques e aliviar a pressão sobre os preços internos, as entidades avaliam que esse movimento nem sempre é positivo, especialmente quando ocorre em função da desvalorização do produto.
Dados apresentados na coletiva indicam que, em 2025, o saldo comercial do arroz foi positivo em 221 mil toneladas, mas apenas a partir de novembro. Até então, as importações superaram as exportações. Antônio da Luz alertou que o Estado tem capacidade de ampliar rapidamente as vendas externas, mas geralmente em momentos de preços deprimidos. “Uma exportação que sai pelo porto porque o produto está muito barato não é uma política que a gente comemore”, afirmou.
Segundo as lideranças, as assimetrias dentro do Mercosul agravam o cenário. Nunes destacou que a indústria gaúcha perdeu parte do beneficiamento para outros Estados que importam arroz do Paraguai. “Temos produtividade elevada, mas não conseguimos competir em preços com nossos vizinhos, e isso precisa ser corrigido”, afirmou. Ele ressaltou que a exportação, por si só, não resolve os problemas estruturais do setor, sendo necessário avançar em ajustes internos, tributários e logísticos para garantir a sustentabilidade da cadeia arrozeira.
