Mais de 60% dos brasileiros está acima do peso e pouco mais de 25% já enfrenta um quadro de obesidade. Esses são os dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde, divulgados na última quarta-feira. O estudo promove uma reflexão sobre como os hábitos e a rotina dos brasileiros influência diretamente na saúde.
Segundo o levantamento, a prevalência de excesso de peso em adultos saltou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024. No mesmo período, os casos de obesidade mais que dobraram, passando de 11,8% para 25,7%. O estudo também traz informações sobre hipertensão, diabetes, hábitos alimentares, prática de atividade física e sono, apontando um cenário multifatorial e complexo.
A obesidade, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica, recidivante e multifatorial. Ela está associada a uma série de complicações, como diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, apneia do sono, alguns tipos de câncer e transtornos emocionais. Para a endocrinologista e professa das Faculdades de Medicina da UFPel e da UCPel, Maria Alice Dode, o avanço da doença não pode ser explicado por escolhas individuais isoladas, mas sim como um fenômeno social, econômico e ambiental.
Causas
Entre os principais fatores está a chamada transição alimentar, marcada pela substituição de alimentos in natura e preparações caseiras por produtos ultraprocessados. Esses alimentos são ricos em açúcar, gordura, sal e aditivos, além de amplamente disponíveis, baratos e fortemente propagandeados. “Vivemos em um ambiente obesogênico, em que alimentos hipercalóricos estão acessíveis o tempo todo”, explica a médica.
A rotina cada vez mais acelerada também pesa na balança. A nutricionista e professora do curso de Nutrição da Anhanguera Pelotas, Elisa dos Santos Pereira, observa que a falta de tempo influencia diretamente as escolhas alimentares. “As pessoas trabalham mais, chegam em casa cansadas, têm filhos, tarefas domésticas, e acabam optando por pedir comida ou refeições rápidas, que geralmente não são saudáveis”, relata.
Segundo ela, a alimentação inadequada não se resume à quantidade e à qualidade da comida, mas é influenciada também pela frequência das refeições. “Se eu não tomo café da manhã, muito provavelmente vou comer mais no almoço”, explica.
Outro ponto destacado pela endocrinologista é o sedentarismo estrutural. Apesar de mais pessoas relatarem a prática de atividade física, o tempo total em comportamento sedentário aumentou, impulsionado pelo uso excessivo de telas e pela redução de deslocamentos ativos, como caminhar ou pedalar. A desigualdade social também interfere, já que populações mais vulneráveis têm menos acesso a espaços públicos seguros para se exercitar.
Além disso, fatores como privação crônica do sono e estresse persistente têm sido cada vez mais associados ao ganho de peso. “Dormir pouco altera hormônios que regulam fome e saciedade, como grelina e leptina, além de aumentar o cortisol”, explica Maria Alice.
Outro aspecto que influencia o ganho de peso é a relação emocional com a comida. “A comida funciona muitas vezes como válvula de escape. Quando estamos felizes, comemoramos comendo; quando estamos tristes, buscamos conforto na comida”, explica Elisa. Por isso, o acompanhamento nutricional muitas vezes precisa caminhar junto com o apoio psicológico.
Alimentação saudável
No campo da alimentação, Elisa alerta para armadilhas comuns, especialmente entre quem tenta emagrecer por conta própria. “A maior falha é querer um resultado rápido e fazer mudanças radicais, cortando tudo de uma vez. Isso não se sustenta e leva à desistência”, diz. Para ela, o caminho está em mudanças graduais e duradouras, que possam ser mantidas ao longo da vida.
A nutricionista chama atenção para o chamado “terrorismo nutricional”, marcado pela demonização de alimentos comuns, e reforça que nenhum alimento, de forma isolada e em pequenas quantidades, causa doenças. O risco está no consumo excessivo e frequente, sobretudo de ultraprocessados.
A nutricionista também rebate a ideia de que comer bem é caro. “Existe uma falsa ilusão de que alimentação saudável envolve produtos caros. O básico do prato brasileiro – arroz, feijão, carne e salada – é suficiente para garantir uma dieta equilibrada”, afirma.
Diante do avanço da obesidade no país, as especialistas reforçam que a alimentação saudável não deve ser vista apenas como tratamento, mas como prevenção. “Não se trata de excluir alimentos ou seguir dietas extremas, mas de construir uma relação equilibrada com a comida”, resume a nutricionista.
Estigma, diagnóstico e tratamento
Para além de uma questão estética, a endocrinologista explica que reduzir a obesidade minimiza seu impacto clínico, atrasa o diagnóstico e o tratamento adequado, além de reforçar o estigma sobre pessoas que necessitam de acompanhamento profissional. “Reconhecer obesidade como doença é fundamental para compreender sua fisiopatologia e valorizar seus impactos físicos e psíquicos”, afirma.
O estigma, inclusive, é apontado como um dos maiores obstáculos ao tratamento. “Ele gera atraso na procura por ajuda médica, sentimentos de culpa e vergonha, além de baixa adesão ao tratamento. Abordagens reducionistas, como a ideia de que ‘é só fechar a boca’, reforçam esse cenário”, explica a endocrinologista.
Para Maria Alice, reconhecer a obesidade como doença é o primeiro passo para enfrentá-la de forma eficaz. “Tratar a obesidade exige ciência, escuta e empatia. Não julgamento”, conclui.
