Vinte dias após a morte do agricultor Marcos Nörnberg, morto por policiais da Brigada Militar na madrugada de 15 de janeiro, a dor da perda segue presente na rotina de sua esposa, Raquel Nörnberg. Em entrevista ao programa Debate Regional, da Rádio Pelotense, nesta quarta-feira (4), ela fala sobre o luto, a busca por justiça e a mobilização para que casos semelhantes não se repitam no Rio Grande do Sul. Entre as iniciativas, Raquel lidera um abaixo-assinado que pede a obrigatoriedade do uso de câmeras corporais por policiais militares e a realização de exames toxicológicos periódicos e aleatórios nos agentes da Brigada Militar.
Como tu estás lidando com tudo o que aconteceu?
Cada dia que passa está mais difícil. Eu sei que ele não vai voltar. Eu sei que qualquer coisa que eu faça não vai trazê-lo de volta. A saudade, a cada dia, aumenta mais, mas estou tentando me manter forte, porque sei que hoje, não só eu, mas muitas pessoas se sentem inseguras em relação a tudo o que a gente está vendo e que está acontecendo no Rio Grande do Sul. O que ainda está me movendo é essa possibilidade de a gente ter um futuro melhor, porque isso que aconteceu não pode se repetir.
Todos conseguem perceber que a senhora, por mais que esteja sofrendo, também está se mobilizando, pensando no futuro e nas pessoas. Como estás tirando força para transformar o que aconteceu em uma pauta social?
Nem eu sei de onde estou tirando força, porque realmente é muito difícil. Tu faz planos, e a gente tinha muitos planos, e hoje eu não consigo ver um futuro. Ainda não consegui nem viver o meu luto, porque sei que, se eu não tiver essa força, tudo vai ser esquecido ou a investigação não vai ser feita de forma justa. Eu não quero que ninguém seja punido se realmente não tiver culpa.
Quero que as coisas sejam feitas de uma forma honesta e justa, e tenho dito isso para a delegada, falei isso também para a corregedoria no meu depoimento e para todas as pessoas que me procuram; eu sempre digo a mesma coisa. Só que hoje eu tenho muitas pessoas da minha família que dependem de mim e que dependem que eu tenha essa força para continuar. Tudo o que eles queriam era se fechar e viver o luto, mas eu não conseguia – e não consigo ainda – talvez porque eu não pude ver meu marido e tocar no meu marido na despedida.
Para mim é muito, muito difícil, mas estou buscando essa força e pensando que a minha afilhada, os meus netos que ainda vão nascer, meus sobrinhos, tenham um futuro melhor, um futuro seguro. E, quando falo em segurança, não é só contra a polícia, é contra os bandidos, contra a polícia, contra todos que, de alguma forma, têm o poder de fazer algo diferente do que o protocolo define.
Os argumentos que tu recebeu até agora da Brigada Militar te convencem?
Não. Já vi alguns relatórios que demonstram imparcialidade, mas também tive acesso a alguns depoimentos e entendo que cada um vai dar a sua versão. Mas o fato é que nós estávamos dormindo, que o meu marido não saiu de casa. Eu não vi meu marido dar um tiro até que a nossa casa foi arrombada.
E outro fato é: eu fui torturada por quase duas horas. Eu fui ameaçada, minha vida foi ameaçada. Vejo falarem muito do crime de homicídio, mas não vi a corregedoria se pronunciar até agora sobre o crime de tortura.
Tudo o que li até agora, em todos os materiais da corregedoria a que tive acesso, não vejo nada sobre o crime de tortura. Eu sei que meu marido hoje não está mais sofrendo, mas eu estou. Não consigo dormir, não consigo tirar da cabeça as vozes me pressionando e dizendo que eu tinha que falar o que eles queriam ouvir, porque senão ia dar ruim para mim, porque já tinham matado meu marido e a coisa ia complicar para o meu lado. Isso é tortura. Eu fui torturada e ninguém fala sobre isso.
O que nessas duas horas a senhora ouvia do que estava acontecendo?
Foram diversos momentos. Teve um momento em que eles ainda acreditavam que eu era uma criminosa e teve momentos em que já sabiam que eu não era. Eu senti, embora não visse, todo o desespero que eles tiveram. Eles ficaram desesperados.
Mas, praticamente uma hora depois de identificarem que eu não era uma criminosa, eles mexeram em todas as minhas coisas, modificaram tudo, mudaram o lugar onde o corpo do meu marido estava; eu escutei tudo. Eles me pressionavam, como se eu tivesse que assumir qualquer crime para justificar a minha presença ali.
Eu precisava dizer um nome que não era o meu, sabe? É como se eles tivessem um nome e eu precisasse dizer um nome que não era meu. Eu precisava dizer o nome do meu marido que não era o dele. A tortura psicológica que eles fizeram foi para que eu fizesse isso. Ficar ajoelhada em cima dos cacos de vidro onde eu estava por uma hora e meia é tortura.
Tu estás pedindo para as pessoas participarem de um abaixo-assinado para tornar obrigatório o uso de câmeras de segurança e a realização de exames toxicológicos aleatórios. Se essas câmeras já estivessem em funcionamento, tu achas que a tragédia poderia não ter acontecido ou ter sido diferente?
Tenho plena convicção de que sim, porque não existia denúncia de que havia alguém em cárcere na casa que eles procuravam. A informação era de que havia armas, pessoas armadas e drogas. Nada justificaria uma invasão na madrugada se não houvesse alguém em risco de vida.
Essa operação foi autorizada fora da lei. Se eles tivessem câmeras corporais, com certeza não teriam feito a abordagem da forma que fizeram. Não teriam ficado comigo todo aquele tempo, não teriam me torturado, porque teriam seguido um protocolo. Na minha opinião, muitas das coisas que estão acontecendo no Rio Grande do Sul não estariam acontecendo se houvesse câmeras de segurança obrigatórias.
Também falo isso pensando na proteção dos próprios policiais, porque a câmera protege os dois lados. Protege um adolescente que está na rua e sofre uma intervenção — um “atraque”, como eles chamam, muitas vezes de forma abusiva. É triste ter que criar um filho dizendo: “tu faz o que eles disserem”. O que é ter que dizer para o teu filho ter medo da polícia?
Sobre o exame toxicológico, eu custei a acreditar que não eram bandidos com roupa de polícia, pela forma da abordagem. Sempre disse, desde o início, que achava que eles estavam bêbados ou drogados. Isso foi passando, mas quando recebi o exame de necropsia do meu marido, me chamou a atenção o pedido de exame toxicológico.
Coletaram o sangue dele, até aí tudo bem, mas tudo bem também se tivessem coletado de todas as pessoas que participaram da operação, o que não foi solicitado. Para eles, existiu um confronto. Uma das partes do confronto será submetida a todos os exames. Por que todas as demais não foram?
Já que a nossa vida está na mão deles, já que a vida das pessoas que dirigem está na mão de muitos caminhoneiros, e eles fazem o toxicológico, por que a polícia, que tem a vida de toda a população na mão, não tem que fazer?
