A Câmara de Pelotas aprovou dois requerimentos que determinam a convocação do secretário municipal de Planejamento e Gestão, Salvador Martins, para prestar esclarecimentos em plenário. As datas estão marcadas para quinta-feira, às 10h, e para a próxima terça-feira, e se baseiam em denúncias que apontam uso da estrutura administrativa do governo em situações específicas.
Uma das acusações trata diretamente de interferência em processo disciplinar envolvendo a vereadora Fernanda Miranda (PSOL), suspensa pela Comissão de Ética. Segundo o requerimento aprovado, Salvador teria atuado para reduzir uma penalidade disciplinar aplicada à vereadora, originalmente fixada em 60 dias, para 15 dias, além de articular para que a punição fosse cumprida durante o período de recesso parlamentar. O texto menciona, inclusive, a possibilidade de enquadramento da conduta como advocacia administrativa, por patrocínio de interesse privado no âmbito da administração pública.
O segundo requerimento trata de suposta interferência política na eleição da Mesa Diretora da Câmara. Conforme o documento, o secretário teria participado de articulações que envolveriam oferta de cargos comissionados em troca de apoio político, além de ameaças e exonerações de servidores indicados por vereadores como forma de pressão sobre parlamentares. A denúncia sustenta que a Secretaria de Planejamento e Gestão teria sido utilizada como instrumento de controle político do Legislativo, o que motivou o pedido de convocação para esclarecimentos públicos.
Nos dois casos, os vereadores buscam esclarecer quem solicitou as intervenções, como elas foram operacionalizadas, se houve registros formais dessas decisões e se outros integrantes do Executivo participaram das articulações.
Os requerimentos são de autoria do vereador Marcelo Bagé (PL) e foram aprovados com 15 votos a favor e quatro contrários, indicando divergências internas no plenário sobre o alcance e a gravidade das denúncias. À coluna, Salvador Martins afirmou que estará à disposição para dialogar com os vereadores. Disse ainda que, caso os fatos indicados nas convocações revelem alguma irregularidade atribuível a ele ou a terceiros, informará o Ministério Público e solicitará a instauração de investigação para aprofundamento das matérias levantadas e de eventuais temas conexos.
Por fim, é preciso registrar o contexto político em que as convocações ocorrem. Os requerimentos aprovados da oposição e se inserem em uma estratégia de pressão sobre o núcleo de articulação do governo. À frente da Secretaria de Planejamento e Gestão, Salvador Martins é o principal operador político-administrativo do Executivo, responsável por interlocuções com a Câmara e pela condução de decisões internas do governo do prefeito Fernando Marroni. Nesse cenário, as convocações também funcionam como instrumento de desgaste político sobre quem ocupa posição central na engrenagem do governo.
Virada institucional
A composição das presidências das comissões permanentes da Câmara em 2026 sinaliza uma inversão clara de forças em relação ao ano passado. Desta vez, quem saiu vitoriosa foi a oposição. Em 2025, o desenho institucional favorecia a situação. Naquele momento, César Brisolara (PSB) ainda orbitava a base governista, ao menos no início do ano, e conduzia a Comissão de Constituição, Justiça e Redação com esse alinhamento. A Comissão de Orçamento e Finanças estava sob o comando de Ivan Duarte, enquanto a Comissão de Ética tinha Jurandir Silva à frente. O conjunto dessas três comissões estratégicas indicava controle do ritmo legislativo pela base.
Em 2026, o cenário se inverteu. A recondução de Brisolara à presidência da CCJ ocorre agora em um contexto distinto, com o vereador posicionado na oposição e respaldado por uma maioria que resistiu à tentativa da situação de retomar o comando da comissão. A CCJ, que define admissibilidade jurídica e controla o tempo de tramitação dos projetos, permanece fora do alcance direto do governo, apesar da articulação para emplacar Arthur Hallal no cargo.
A Comissão de Orçamento e Finanças também mudou de eixo. Ao eleger Cristiano Silva, do União Brasil, a Câmara desloca o centro das decisões fiscais para um campo menos alinhado à base. Como a COF é onde projetos enfrentam o crivo financeiro, a mudança tende a produzir mais filtros, ajustes e negociações ao longo do ano.
Na Comissão de Ética e Decoro Parlamentar, a escolha de Cauê Fuhro Souto (PV) completa esse novo arranjo. Mesmo após ter respondido a um processo na comissão, arquivado em dezembro, Cauê foi alçado à presidência, o que reforça a leitura de que a maioria optou por um comando independente da situação e decidiu tratar o episódio como superado.
O resultado prático é um Legislativo que começa 2026 com as três comissões mais sensíveis fora do controle da base governista. Sendo assim, projetos tendem a tramitar com mais negociação e menos margem para acelerações políticas. Se no ano passado, ao menos até outubro, a situação ditava o ritmo institucional, agora a oposição passou a controlar os filtros do processo legislativo. E, em política, quem controla os filtros controla as prioridades e, muitas vezes, o desfecho.
Projeto ferroviário
Na manhã desta quarta-feira (04), a secretária Paula Mascarenhas e o superintendente da Portos RS, Fernando Estima, anunciam, no Capão do Leão, a publicação do edital para a contratação da empresa que irá elaborar os estudos do Projeto Conceitual do Parque Natural e Histórico Ferroviário da Pedreira. O lançamento do edital sinaliza a passagem da ideia para o planejamento técnico. Quando o vereador Paulo Ávila afirma, na Rádio Pelotense, que a rota turística de trem entre Capão do Leão, Cerrito e Pedro Osório é um sonho coletivo, ele aponta menos para a memória afetiva e mais para a organização de um ativo regional hoje fragmentado.
A previsão de conclusão do plano em 2029 importa porque cria horizonte, reduz incerteza e permite a entrada de investimento. A inclusão do Museu do Trem, no Cerro do Estado, amplia o alcance do projeto ao conectar preservação histórica com uso turístico permanente. O interesse já manifestado por Pelotas e Rio Grande faz aumentar o fluxo potencial e a viabilidade econômica. Nesse contexto, a aguardada reunião com o secretário de Turismo de Pelotas, Danilo Rodrigues, será determinante para definir se o passeio de trem se tornará um vetor efetivo de turismo regional.