Os Jogos Olímpicos de Inverno começam nesta sexta-feira (6) com a presença de uma atleta nascida em Rio Grande entre os 14 representantes do Brasil – Nicole Silveira, do skeleton. Mas já há outro rio-grandino praticante da mesma modalidade com boa chance de se somar à equipe brasileira a partir da edição seguinte, nos Alpes Franceses, em 2030.
Eduardo Strapasson, 18 anos, é filho de Emilio Strapasson, ex-atleta de skeleton, atual presidente da Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG) e chefe da delegação nas Olimpíadas marcadas para ocorrer entre os próximos dias 6 e 22 de fevereiro em Milão e Cortina d’Ampezzo, na Itália.
Após deixar Pelotas no ano passado e fixar residência em São Paulo ao lado do pai, Eduardo mira dedicação extrema durante o ciclo que, para ele, já iniciou. Sob a ótica do jovem, 2030 é o “foco máximo”. Um dos objetivos é treinar com frequência na pista francesa, onde serão disputadas as provas do skeleton daqui quatro anos.
“Não é cedo. Para preparar o corpo, para estar no ápice no momento, leva tempo. Tenho um plano em mente. Mesmo não tendo calendário à disposição, já tenho uma ideia do que quero fazer”, disse o atleta em entrevista à Rádio Pelotense 99,5 FM nesta terça-feira (3), véspera do retorno à capital paulista.

Em janeiro, Eduardo alcançou o segundo melhor tempo da carreira em Lake Placid (EUA), na Copa América, com as duas melhores descidas somando 1min49s97 (Foto: Marina Ziehe – COB)
O primeiro passo é em março, quando Eduardo estará em Altenberg, na Alemanha, para o Mundial Júnior. Nesta competição, ele foi nono colocado na temporada passada na categoria sub-20 – um dos melhores resultados da curta carreira iniciada aos 15 anos, ao lado do top-10 nas Olimpíadas de Inverno da Juventude, em 2024, e dos títulos do Pan-Americano tanto no sub-20 quanto no sub-23.
Depois de retornar da Europa no mês que vem, começará o período chamado de offseason, quando a temporada dos esportes de inverno não tem competições. “A gente treina fisicamente em uma academia, onde for necessário, e quando chega a temporada, vai mudando de pouquinho a pouquinho para adaptar aos locais mais frios”, explica Eduardo.
O jovem não conseguiu vaga para Milão-Cortina. Em janeiro, ele alcançou o segundo melhor tempo da carreira em Lake Placid (EUA), na Copa América, com as duas melhores descidas somando 1min49s97. A definição acontece via ranking internacional do skeleton conforme o desempenho em competições. Eduardo aparecia em 48º dessa classificação – posto considerado positivo em função da pouca experiência no esporte.
Aprendizado com Nicole
É mera coincidência que tantos rio-grandinos tenham posições de destaque em um dos esportes de gelo. Nicole Silveira se mudou ainda na infância para Calgary, no Canadá. Experimentou outras modalidades até se encontrar no skeleton, a partir de 2017. Ela também atua como enfermeira durante a offseason.
Emilio Strapasson, por sua vez, virou o primeiro brasileiro a competir pelo país em eventos continentais de skeleton. No Mundial, ficou entre os 30 melhores colocados em 2011. Nessa jornada, ocupou cargos de gestão até o retorno à CBDG no fim de 2024, como presidente, e incentivou o filho a conhecer o universo dos ice sports.
“Meu pai foi um dos pioneiros do esporte. Ele veio de Rio Grande. Foi fazer o esporte, se desenvolveu e depois acabou entrando como presidente, começou a coordenar o esporte. Nisso, estava nos Estados Unidos e achou a Nicole por algum acaso”, conta Eduardo sobre a trajetória de Emilio.
“Ela [Nicole] é minha mentora, então acabo conversando bastante. Me ajuda em diversas coisas, porque sabe muito mais do que eu desse esporte. Às vezes estou indo para uma pista nova, algo novo, e peço a opinião dela. Temos uma relação mais próxima. No Mundial do ano passado, estava com ela e me ajudou bastante em vários quesitos além da pista”, fala a respeito da colega.

Os equipamentos necessários são um capacete de fibra de vidro, sapatilhas com miniagulhas na sola para dar tração durante a largada e um speed suit, espécie de macacão com tecido desenvolvido para reduzir o atrito, como veste Nicole na imagem (Foto: Divulgação – IBSF)
O skeleton
Na modalidade, o atleta se lança em um trenó composto por metal e plástico e desce a pista de cabeça, ultrapassando 120 quilômetros por hora. Os equipamentos necessários são um capacete de fibra de vidro, sapatilhas com miniagulhas na sola para dar tração durante a largada e um speed suit, espécie de macacão com tecido desenvolvido para reduzir o atrito.
Assim como o bobsled, a origem do esporte remonta ao século 19, com a popularização dos trenós como meio de transporte em regiões montanhosas. Alemanha, Áustria, Suíça, Reino Unido e Canadá estão entre os países de maior destaque nas competições internacionais, mas a modalidade vem se expandindo para outras nações, como Coreia do Sul, Austrália e o próprio Brasil.
Cada pista possui um trajeto diferente, com sinuosidade e comprimento específicos. A posição do corpo e os movimentos com a cabeça e os ombros, além da pressão exercida nas placas do trenó, são determinantes para direcionar o atleta durante a descida.
Jogos de Inverno
As Olimpíadas de Inverno 2026 são a 25ª edição do evento, cuja estreia se deu em 1924. Os 14 atletas brasileiros – mais um reserva – neste ano representam o maior número da história do país. Mesmo caso nas Paralimpíadas de Inverno, de 6 a 15 de março, quando o Brasil contará com sete componentes.
Nesta edição, a cerimônia de abertura está marcada para sexta-feira, às 16h (de Brasília), no estádio San Siro, em Milão.
Chances da primeira medalha
O Brasil participou pela primeira vez das Olimpíadas de Inverno em 1992 e nunca teve a bandeira no pódio. A melhor colocação de qualquer atleta do país em Jogos de Inverno é o nono lugar de Isabel Clark no snowboard cross, em Turim, 2006.
Na edição prestes a começar, as maiores chances de medalha ficam nas mãos de Lucas Pinheiro Braathen e Pat Burgener, além de Nicole Silveira, integrante do top-10 do mundo no skeleton.
Lucas é filho de mãe brasileira e pai norueguês. Cresceu na Noruega e representava a nação nórdica até 2023, quando decidiu se aposentar enquanto figurava entre os melhores do mundo no esqui alpino por conta de divergências com a federação. Em 2024, voltou atrás e passou a representar o Brasil.
Burgener nasceu na Suíça e tem raízes no Brasil em função de que a família da mãe deixou o Líbano nos anos 80 e se estabeleceu em solo brasileiro. Ele soma pódios em etapas do Mundial no snowboard.
Brasileiros nos Jogos de Inverno
- Bobsled: Edson Bindilatti, Davidson de Souza, Luís Bacca, Rafael Souza e Gustavo Ferreira (um será reserva)
- Skeleton: Nicole Silveira
- Snowboard: Pat Burgener e Augustinho Teixeira
- Esqui alpino: Lucas Pinheiro Braathen, Christian Oliveira Soevik, Giovanni Ongaro e Alice Padilha
- Esqui cross-country: Manex Silva, Eduarda Ribera e Bruna Moura
