Um novo ano, dois novos Globos de Ouros

Opinião

Renato Cabral

Renato Cabral

Crítico de cinema e membro da Abraccine www.calvero.org

Um novo ano, dois novos Globos de Ouros

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Foram campanhas muito diferentes. Ainda Estou Aqui surgiu na disputa um pouco atrasado, e tudo se encaixou rapidamente. A vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro abriu algo que os estadunidenses conhecem pouco: o entusiasmo e o engajamento virtual dos brasileiros. Longe de tirar crédito da qualidade da performance de Fernanda — que é uma das melhores dos últimos anos —, mas, em uma época de crise nas transmissões de premiações, fomos descobertos e fizemos acontecer naquela “festa estranha de gente esquisita”. E não é surpresa alguma a presença de O Agente Secreto nesta temporada do Globo de Ouro e, eventualmente, do Oscar. O filme de Kléber Mendonça Filho é repleto de qualidades e venceu prêmios importantes em Cannes, assim como em diversas associações de críticos ao redor do mundo — nesta semana, foi considerado o melhor filme brasileiro pela associação gaúcha, a ACCIRS, e a associação nacional dificilmente ficará de fora dessa mesma conclusão.

Kléber entrega um filme politicamente engajado sem perder o caráter de entretenimento, repleto de referências cinematográficas brasileiras, norte-americanas e europeias. Um prato cheio para instigar críticos e também o público estrangeiro. Soma-se a isso a presença da NEON e da Mubi — duas distribuidoras reconhecidas pelo trabalho com cinema internacional e habituadas a colocar seus filmes nas premiações. E, diferente de Fernanda, Wagner Moura já tem uma carreira um tanto quanto consolidada nos Estados Unidos. Esteve em filmes e séries de grande visibilidade nos últimos anos — Narcos, Gato de Botas, Guerra Civil. Não é surpresa a nossa vitória dupla nos Globos: Melhor Filme Internacional e Melhor Ator – Drama, é reconhecimento real. Tudo isso envolve, claro, uma visão mercadológica e estratégica: trata-se de um quebra-cabeça muito maior que ajuda a explicar a nossa chegada ao pódio. Um trabalho necessário e que, por vezes, falta a nós — divulgar, sustentar, levar adiante o que fazemos.

Mas precisamos destacar que mesmo com olhos voltados para o exterior, Kléber, nunca deixa de produzir aqui, valorizar a sua terra. Foi presença constante em festivais, seja nos tempos de crítico ou, posteriormente, como diretor, retratando o Recife e suas complexidades. O Agente Secreto é a coroação desse percurso e a descoberta, por parte dos gringos, dos grandes tesouros que temos aqui. Que, assim como terras raras e petróleo, espero que os estadunidenses não raptem esses talentos.

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