“O piercing, muitas vezes, é parte da identidade”

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“O piercing, muitas vezes, é parte da identidade”

Andressa Mendes – Body Piercer

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“O piercing, muitas vezes, é parte da identidade”
Andressa atua na área há 9 anos (Foto: Divulgação)

Muito além de uma tendência estética, o piercing tem se consolidado como uma forma de expressão pessoal, identidade e até cuidado emocional. Em um cenário onde o body piercing ainda enfrenta preconceitos e desinformação, profissionais da área atuam não apenas na perfuração, mas também na educação do público, na promoção da saúde e no acolhimento de diferentes gerações que buscam se reconhecer no próprio corpo.

Essa é a paixão de Andressa Mendes (@andressabodypiercing), body piercer que atua na área há 9 anos e que vê no próprio trabalho muito mais do que um procedimento estético. Para ela, cada perfuração carrega histórias, processos de autoaceitação e construção de identidade, além de exigir responsabilidade técnica, biossegurança e compromisso com a saúde de quem passa pelo estúdio.

Para você, qual é o significado do piercing além da estética?
O piercing vai muito além da estética: ele é uma forma de expressão. Isso fica evidente diariamente no estúdio, quando o cliente tem o primeiro contato com o espelho após a perfuração e passa a se olhar com mais amor, mais segurança e autoestima. Também percebo isso quando recebo retornos de pessoas que precisaram retirar temporariamente suas joias para algum procedimento médico e relatam se sentir “desconectadas” da própria imagem, ansiosas para recolocar seus adornos. O piercing, muitas vezes, é parte da identidade.

Como você lida com o preconceito que ainda existe em relação à profissão e como ajuda seus clientes a enfrentarem o preconceito contra pessoas que usam piercing?
O preconceito ainda existe, principalmente em relação ao reconhecimento do body piercing como uma profissão legítima. É muito comum ouvir perguntas como: “Mas tu faz outra coisa além de piercing?” ou “E no futuro, pretende trabalhar com o quê?”, como se o piercing fosse apenas um passatempo ou uma fase temporária. Também existe a ideia equivocada de que essa área não gera renda ou não exige qualificação técnica.

Lido com isso através do profissionalismo, da informação e do posicionamento. Quando mostramos processos de biossegurança, estudo contínuo, investimento em estrutura, materiais certificados e atendimento humanizado, automaticamente quebramos esses estigmas. A melhor forma de combater o preconceito é elevar o padrão do serviço e educar o público.

Ao mesmo tempo, percebo que o preconceito social em relação ao uso do piercing vem diminuindo. Hoje atendemos pessoas de 50, 60 e até 70 anos — não apenas para o “segundo furo”, mas para perfurações como conch, hélix e aba nasal. Outro avanço importante é o apoio familiar: muitos pais acompanham os filhos, buscam profissionais qualificados e participam das decisões, algo bem diferente das décadas de 90 e 2000, quando o piercing era fortemente associado à rebeldia.

Acredito que gerações anteriores abriram caminho para que hoje possamos avançar ainda mais. Nosso papel é continuar profissionalizando o setor, mostrando que piercing é expressão, autocuidado e também uma área séria, técnica e economicamente ativa.

Existe algum piercing que você se recusa a fazer? Por quê?
Sim. Dentro da área, utilizamos o termo “chernopiercing” para classificar perfurações que apresentam riscos significativos à saúde e não são compatíveis com práticas profissionais responsáveis.

Um exemplo é o snake eyes, realizado na ponta da língua, que pode causar alterações na fala, desgaste gengival irreversível, danos à arcada dentária e até necessidade de procedimentos cirúrgicos corretivos. Outro caso é o smile, perfuração no freio do lábio superior, que também apresenta alto risco de retração gengival. Perfurações em dedos das mãos também são evitadas devido à alta exposição à contaminação.

Como profissional, meu compromisso é priorizar a saúde e a integridade do paciente acima de qualquer tendência estética.

Quais riscos existem para quem faz um piercing sem procurar um profissional qualificado?
Vivemos em uma época em que a saúde precisa ser tratada com ainda mais responsabilidade. Fatores como estresse, mudanças ambientais, alimentação industrializada, sedentarismo e o impacto do uso excessivo de telas na saúde mental influenciam diretamente a imunidade da população. Isso faz com que o corpo esteja mais vulnerável a processos infecciosos e inflamatórios.

Por isso, procedimentos que envolvem perfuração da pele precisam, hoje, ser encarados com muito mais seriedade do que no passado. Ainda é comum ouvir comparações como “antigamente se fazia piercing em casa, no pátio ou até em farmácias”, mas estamos em outro contexto.

Realizar um piercing fora de um ambiente controlado e profissional pode resultar em infecções graves, rejeição ou expulsão da joia, reações alérgicas, encapsulamento, deformações em cartilagens e, em casos extremos, complicações sistêmicas sérias. Segurança não é mais um diferencial: é uma necessidade básica.

Qual é o erro mais comum que as pessoas cometem no pós-piercing e quais produtos, que muitas vezes parecem inofensivos, acabam prejudicando a cicatrização?
O erro mais comum é basear os cuidados apenas na ausência de dor. Quando o procedimento é bem executado, é normal que nos primeiros dias a dor, o inchaço e a vermelhidão diminuam rapidamente. Isso cria uma falsa sensação de que a cicatrização já está avançada, quando na realidade o corpo ainda está em um processo ativo de reparo.

Gosto de comparar com o uso de antibióticos: quando um médico prescreve um tratamento de 10 dias, geralmente no quinto dia o paciente já se sente melhor. Mesmo assim, sabemos que não é correto interromper o tratamento antes do prazo, pois isso pode fazer com que a bactéria se torne mais resistente e o problema retorne de forma mais intensa. No piercing, a lógica é muito semelhante. O fato de não haver dor não significa que os cuidados possam ser interrompidos.

Outro erro frequente é o excesso de manipulação da joia, dormir sobre a perfuração, movimentar o piercing sem necessidade ou abandonar a rotina de higienização indicada pelo profissional. Quando surgem sinais inflamatórios naturais do processo de cicatrização, muitos pacientes recorrem à internet e acabam utilizando produtos inadequados, como antissépticos fortes, pomadas e soluções caseiras.

Esses produtos podem interferir no processo inflamatório fisiológico, que é necessário para uma cicatrização saudável, além de criar ambientes úmidos que favorecem a proliferação bacteriana. Quando há necessidade de uso de medicamentos tópicos, a indicação deve sempre partir de um profissional da saúde, e não da automedicação.

O que mais me gratifica é saber que eu impacto vidas todos os dias. Não apenas colocando uma joia, mas participando de momentos importantes da história das pessoas: superações, recomeços, afirmação de identidade, aumento de autoestima e amor próprio.

O que você mais considera gratificante na profissão e qual momento do seu trabalho fez você sentir que escolheu a profissão certa?
Tenho certeza de que escolhi a profissão certa porque trabalhar nunca foi apenas uma obrigação para mim. Sempre que fico algum tempo longe do estúdio, sinto que algo em mim fica fora do lugar. Estar atendendo, cuidando, conversando, criando conexões humanas reais, me devolve energia, propósito e equilíbrio.

Em fases difíceis da minha vida, quando enfrentei ansiedade, tristeza ou momentos de vulnerabilidade emocional, foi dentro do meu consultório que muitas vezes encontrei calma. Trabalhar já foi, em vários momentos, parte do meu próprio processo de cura. É como se, enquanto cuido do outro, eu também me reconectasse comigo mesma.

Não trocaria o piercing por nada. E minha escolha pela Biomedicina vem justamente desse amor pela área da saúde e do desejo de ir ainda mais longe: unir ciência, estética e segurança para oferecer um atendimento cada vez mais humano, ético e qualificado. Eu não escolhi apenas uma profissão, eu escolhi um propósito.

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