Estreou na noite de ontem, na Mostra Praça do Festival de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais, o curta-metragem Para não ser levada por qualquer ventania, obra de forte caráter íntimo assinada pela pelotense Eleonora Loder. Com sete minutos de duração, o filme marca a estreia dela em festivais como diretora e foi exibido ao ar livre, em uma das mostras mais populares do evento, voltada ao encontro direto entre cinema e comunidade.
Eleonora Loder integra a primeira turma da graduação em Cinema e Animação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e construiu uma trajetória marcada pela circulação internacional e pelo aprofundamento no campo do roteiro. Após a formação, especializou-se em roteiro em Cuba, onde viveu por três anos. De volta ao Brasil, atuou em Porto Alegre, trabalhando em séries e outros projetos audiovisuais, além de ter sido professora substituta do curso de Cinema da UFPel. Posteriormente, retornou a Cuba para coordenar o curso de roteiro da escola de cinema do país, onde permaneceu por mais três anos. Desde 2024, está novamente radicada em Porto Alegre, dedicando-se ao desenvolvimento de seu primeiro longa-metragem de animação, produzido pela Otto Desenhos Animados.
Do último semestre
Para não ser levada por qualquer ventania é sua produção mais recente e nasceu no último semestre, a partir de uma oficina de Cinema Experimental ministrada pela produtora colombiana Invasión Cine. Uma das propostas do curso desafiava os participantes a realizarem um filme utilizando apenas imagens já existentes em seus próprios celulares. Ao revisitar seus arquivos, Eleonora percebeu a recorrência de registros feitos a partir da vista de seu apartamento na escola de cinema em Cuba: o campo, uma árvore, uma pequena casa ao fundo, mudanças de luz, chuva, sol, fogo na pastagem, animais que atravessavam a paisagem.
Desse material aparentemente cotidiano surgiu um ensaio audiovisual sobre o tempo, a ausência e o luto. Em 2018, Eleonora perdeu a mãe, a professora e historiadora Beatriz Ana Loner, que lecionou na UFPel.
No filme, a paisagem se transforma enquanto a trilha sonora é composta por ligações telefônicas que a realizadora gostaria de ter feito para a mãe, diálogos imaginados que transitam entre o banal, a dor da perda e um sonho marcante em que a consciência da morte se impõe.
A relação entre a mutação da paisagem e o processo do luto estrutura o curta. O título remete a versos escritos pela própria Eleonora em seus diários, numa inversão simbólica da imagem associada à escritora Virginia Woolf: “encher os bolsos de pedras” não para desaparecer, mas para permanecer, resistir e não ser levada pelas ventanias do tempo e da dor.
Dimensão afetiva
Embora a Mostra Praça não seja competitiva, conta com o Prêmio Júri Popular e é reconhecida por sua dimensão afetiva e coletiva. “Não sei como vou me sentir (falou na tarde de ontem). Acho que é uma coisa bem emocionante, tô torcendo pra não chorar, mas enfim, não consigo prometer.”
Para Eleonora Loder, a exibição em Tiradentes tem peso especial. Além de marcar sua estreia como diretora em festivais, o curta inaugura uma nova fase de sua trajetória artística, agora retomando a direção como espaço de expressão pessoal, após anos dedicados principalmente ao trabalho de roteiro. “É outra perspectiva também, por muitos anos me dediquei ao roteiro em específico e agora eu tô voltando, quando era estudante eu dirigia, mas eu fui deixando. Agora isso seria então uma retomada disso. Também como eu tô dirigindo meu longa, então esses são passos como diretora”, fala.
