O Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal de Pelotas (PPGEpi/UFPel) manteve a nota máxima (7) na Avaliação Quadrienal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), reafirmando sua excelência internacional e liderança na área da Saúde Coletiva no Brasil. O programa é reconhecido como o de maior produção científica per capita do país e conta com oito docentes entre os 2% de cientistas mais influentes do mundo, segundo o ranking da Universidade de Stanford/Elsevier (2025).
Criado em 1991, o PPGEpi/UFPel foi considerado de excelência desde as primeiras avaliações da Capes. Para o professor Fernando Wehrmeister, a nota consolida uma trajetória construída ao longo de quase 35 anos. “Um dos grandes diferenciais é sermos um grupo que caminha junto, com objetivos comuns: entender a saúde das pessoas, produzir evidências, subsidiar políticas públicas e devolver resultados relevantes para a sociedade”, destaca.
Atualmente, o programa conta com 56 estudantes de mestrado e doutorado, entre 15 e 20 pós-doutorandos e 17 docentes. Entre os principais eixos de pesquisa estão o Centro de Pesquisas em Desenvolvimento Humano e Violência (DOVE), o Centro Internacional de Equidade em Saúde (ICEH), o Programa de Avaliação da Atenção Básica e as Coortes de Nascimentos de Pelotas, um dos estudos mais emblemáticos do programa.
Décadas de ciência em Pelotas
As Coortes de Nascimentos de Pelotas formam a maior série de estudos longitudinais de acompanhamento de gerações desde o nascimento em uma mesma cidade no mundo. Iniciada em 1982, a pesquisa foi ampliada em 1993, 2004, 2015 e, agora, em 2026. Ao todo, o programa acompanha pelotenses há 44 anos, analisando indicadores de saúde de mulheres, crianças e famílias.
A Coorte 2026 teve início em 1º de janeiro e seguirá até 31 de dezembro, acompanhando todos os nascimentos ocorridos nos hospitais da cidade. A coleta de dados envolve entrevistas com as mães sobre pré-natal, parto e saúde, além da avaliação dos bebês. “No início da vida, há necessidade de um acompanhamento mais frequente. Conforme vão crescendo, os intervalos podem ser maiores”, explica a professora Bruna Gonçalves.
Paralelamente, também estão sendo realizadas as visitas dos participantes da Coorte 2015, atualmente com cerca de 11 anos. Nesta etapa, são aplicados questionários com os responsáveis e com as próprias crianças, além de exames físicos, avaliações dentárias e alimentares.
Segundo a professora, a aceitação das gestantes tem sido elevada: mais de 95% das mães elegíveis aceitaram participar do estudo. A experiência acumulada mostra taxas de acompanhamento acima da média internacional, como na Coorte de 1993, que manteve cerca de 60% dos participantes após 30 anos. Apesar disso, o engajamento contínuo é um desafio, diante do cansaço da população com pesquisas, o que levou à simplificação dos questionários.
Fernando destaca que os impactos científicos nem sempre são imediatos, mas se mostram fundamentais ao longo do tempo. Ele cita estudos sobre amamentação, curvas de crescimento infantil, a consolidação do conceito da janela dos mil dias e a recomendação de colocar bebês para dormir de barriga para cima, importante na prevenção da morte súbita.
Pesquisa que atravessa gerações
Além dos resultados científicos, o programa construiu laços com a comunidade. “Hoje temos gestantes na Coorte 2026 que participaram de estudos anteriores ou são filhas de participantes, formando as chamadas famílias de coorte”, explica Bruna. Esse é o caso de Liara Conteira, cuja relação com as pesquisas atravessa gerações.
Mãe de Erick, participante da Coorte 2015, ela agora também integra a Coorte 2026 com a filha Aurora, nascida em 21 de janeiro. Segundo Liara, o acompanhamento sempre foi tranquilo e positivo, tanto para a família quanto para as crianças. “Ele adora ir à coorte, gosta de fazer as atividades. Para eles é quase uma experiência divertida”, relata.
Liara destaca a contribuição do estudo para o cuidado com a saúde. Durante o acompanhamento de Erick, foram identificados indicativos de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), o que possibilitou à família buscar avaliação especializada fora da pesquisa.
Com a chegada de Aurora, a experiência se repete. Ela elogia a organização do processo e a forma como os questionários são aplicados. “Foi tudo bem, não achei comprido. As meninas que atendem são muito simpáticas”, conta. Para Liara, participar das coortes é uma maneira de contribuir com a ciência e acompanhar de perto o crescimento dos filhos.
