O aumento do custo de vida tem impactado diretamente a permanência de estudantes no Ensino Superior em todo o país. Na universidade pública, mesmo sem o custo da mensalidade, a sobrevivência acadêmica depende cada vez mais de políticas de assistência estudantil. Entre universitários de instituições privadas, o peso das mensalidades se soma a esse fator.
Dados da Serasa apontam que 66% dos universitários endividados já precisaram cortar itens básicos para conseguir pagar a mensalidade. Segundo Rodrigo Costa, especialista em educação financeira da Serasa, muitas instituições utilizam esse momento para oferecer oportunidades de renegociação de débitos como forma de evitar a evasão. “Existe uma preocupação das universidades com o aluno inadimplente, porque um estudante que não consegue pagar é um potencial desistente. As instituições vivem das mensalidades e, por isso, buscam facilitar o pagamento”, explica Costa.
Além do valor da mensalidade, os universitários enfrentam dificuldades para acessar o mercado de trabalho. A falta de experiência faz com que muitos atuem como estagiários ou bolsistas, com rendas insuficientes para cobrir despesas como moradia, alimentação e estudos. A pesquisa da Serasa também mostra que 85% dos estudantes são os únicos responsáveis pelos custos da universidade, tornando o orçamento ainda mais apertado.
Corte de gastos básicos vira estratégia de sobrevivência
Segundo o especialista, o corte de itens básicos não significa, necessariamente, deixar de se alimentar, mas sim optar por alternativas mais baratas e menos saudáveis. “O estudante passa a consumir alimentos mais baratos e menos nutritivos. Além disso, entram nesse pacote contas como água, luz e aluguel, que muitas vezes são deixadas em atraso para priorizar a mensalidade”, afirma.
Ainda conforme dados da Serasa, as contas básicas aparecem como o terceiro principal motivo de inadimplência no Brasil, não apenas entre universitários, mas entre a população toda. Em dezembro do ano passado, o país registrava mais de 81 milhões de brasileiros inadimplentes, com tendência desse número crescer.
Mesmo com alguns indicadores econômicos apresentando melhora, como a taxa de desemprego, Costa avalia que a dificuldade de acesso à renda ainda é uma grande dificuldade “A renda não acompanha o aumento do custo de vida, e isso afeta os brasileiros, principalmente os estudantes”, diz.
Universidade pública: sem mensalidade, mas com orçamento limitado
Na universidade pública, a ausência da mensalidade não elimina os desafios financeiros. Gastos com moradia, alimentação, transporte e materiais acadêmicos fazem com que muitos estudantes dependam integralmente de bolsas e auxílios para permanecer no curso.
É o caso de João Miguel Bueno, estudante do 6º semestre de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Atualmente, ele recebe cerca de R$ 1,3 mil mensais, valor que soma uma bolsa acadêmica e o auxílio moradia. “Eu pago R$ 550 de aluguel e o restante acaba suprindo minhas necessidades básicas”, relata.
As refeições gratuitas no Restaurante Universitário (RU) e o fato de morar no centro da cidade, o que reduz gastos com transporte, ajudam a equilibrar o orçamento. Segundo Bueno, o dinheiro restante é utilizado principalmente para alimentação em casa e despesas do dia a dia.
Porém, ele destaca que a renda é suficiente apenas para o básico. “Dá para suprir dentro das limitações da faculdade. A maior dificuldade é que eu não consigo guardar dinheiro ou fazer coisas fora do orçamento, como pagar um curso ou comprar algo mais caro”, afirma. Buenos também reforça que a bolsa não é garantida a todos os estudantes, pois depende de um processo seletivo.
Jovens mais conscientes, mas ainda pressionados
Conforme o especialista, apesar das dificuldades, o jovem universitário tem apresentado uma consciência financeira maior em comparação a gerações anteriores. A faixa etária entre 18 e 25 anos é hoje a que apresenta menor índice de inadimplência no país. “Eles viram que os pais trabalhavam muito e não conseguiam fazer grandes conquistas. Então, eles não querem reproduzir os comportamentos dos pais”, afirma.
O acesso à informação e à educação financeira, impulsionado pela internet, contribui para esse cenário. Ainda assim, o especialista ressalta que o planejamento financeiro exige disciplina constante. “Planejar não é um exercício pontual, é diário. Conhecer a própria renda, definir prioridades e monitorar gastos é essencial”, conclui.
