Com a proximidade do início oficial da safra de camarão na Lagoa dos Patos, os pescadores artesanais demonstram preocupação com a disponibilidade do crustáceo, impactada pelas condições climáticas. A safra tem início no próximo domingo, 1º de fevereiro, quando os pescadores artesanais ficam autorizados a realizar a pesca do camarão no estuário.
Com a instabilidade do tempo na Zona Sul, pescadores das Colônias Z-1, em Rio Grande, Z-3, em Pelotas, e de São Lourenço do Sul, não esperam uma safra favorável, da mesma forma que vem acontecendo nos últimos anos na região.
A safra é definida pelo presidente da Colônia de Pescadores Z-1, Nilton Machado, como incerta. Uma das razões seria a influência da pesca predatória que, caso não controlada, compromete o tamanho do camarão durante a safra e o preço que virá a ser praticado pelos trabalhadores. “Pessoas não regularizadas pescam para lucrar e acabam matando o camarão de até cinco centímetros. O pescador está desesperado, tem o temor de não ter camarão para dez dias”, afirma Nilton. Ele ainda destaca que as condições da lagoa são propícias na região das ilhas.
Na Colônia Z-3, em Pelotas, o principal fator que coloca em dúvida o sucesso da safra deste ano é a demora para a salinização da água da lagoa.
Seguro defeso
O benefício é pago pelo governo federal aos pescadores artesanais, no período em que a pesca é proibida na Lagoa dos Patos, para a reprodução das espécies. O valor é de um salário mínimo e é pago em cinco parcelas, entre os meses de julho e setembro. No entanto, no último ano, um imbróglio causado pela assinatura de uma Medida Provisória que influencia no controle dos pagamentos, fez com que grande parte dos trabalhadores não tenha recebido o repasse de nenhum valor durante o período.

José é um dos trabalhadores que não tiveram acesso ao seguro defeso (Foto: Jô Folha)
Em Rio Grande, 600 pescadores receberam o pagamento de três parcelas do seguro defeso, enquanto 300 não tiveram acesso a valor algum. Em toda a região, as prefeituras fizeram o repasse de cestas básicas, mas a medida é insuficiente, na visão dos pescadores. “Quando disseram que íamos receber, me organizei para reformar meu barco, fiz parcelado, mas não recebi nada e tive que pegar dinheiro emprestado. Minha esposa, que também é pescadora, não conseguiu receber nada”, afirma José Guimarães, pescador artesanal há mais de 30 anos.
Pescadores
Na Z-3, enquanto a safra de camarão não inicia, os pescadores trabalham no preparo do material e dedicam-se à captura de peixes da temporada para garantir a subsistência. Cícero Augusto, pescador há 36 anos, relembra que, em anos anteriores, a lagoa não havia salgado até o início da safra, mas após o processo, ainda que tardio, a pesca ainda foi satisfatória. “Para se ter camarão em boa quantidade, o ideal é que a lagoa esteja salgada em dezembro, mas mesmo ela salgando em fevereiro ainda, podemos ter uma safra boa”, comenta.
Sobre o impacto da pesca predatória, o pescador Augusto Pintado Rodrigues, 40, afirma que essa não seria a questão que preocupa os pescadores no momento. “Se a água salga, vamos ter muita variedade de pescado, de camarão, em bastante quantidade, então acaba que isso não nos impacta tanto. O problema é a lagoa não salgar”, diz.
Tradição pesqueira
As comunidades tradicionais pesqueiras vivem na Lagoa dos Patos há pelo menos 300 anos, provenientes de diversos territórios pesqueiros, como a Lagoa Mirim. A pesca artesanal é a principal atividade de subsistência e geração de renda, com diferentes tipos de pescarias.
De acordo com o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), a região Sul tem cerca de sete mil pescadores artesanais, sendo 4.627 homens e 2.451 mulheres.
Na análise do presidente da Colônia Z-1, há cerca de 10 anos os pescadores artesanais da região Sul enfrentam dificuldades nas safras.
