Criado em 1921, o Clube Cultural Fica Ahí Pra Ir Dizendo é um dos mais longevos e representativos espaços de sociabilidade negra de Pelotas e do Rio Grande do Sul. Sua origem remonta a uma tarde de verão, em 27 de fevereiro daquele ano, quando um grupo de amigos, reunido na então praça da República, hoje Coronel Pedro Osório, decidiu fundar um cordão carnavalesco para participar dos famosos carnavais da cidade. Assim nascia o Cordão Carnavalesco Fica Ahí Pra Ir Dizendo, nome sugerido por Osvaldo Guimarães da Silva, um dos fundadores, ao lado de Renato Monteiro de Souza e João Francisco Ferreira. As cores azul e branco foram escolhidas com entusiasmo e logo passaram a identificar o grupo.
O desfile inicial foi um sucesso e motivou a continuidade da iniciativa, que extrapolou o Carnaval e se transformou, com o passar dos anos, em um espaço permanente de convivência, lazer e afirmação identitária da população negra. Em um contexto marcado pela exclusão social no pós-abolição, clubes como o Fica Ahí surgiram como alternativas aos espaços restritos às elites brancas, promovendo bailes, quermesses, chás, festivais e jogos, além de fortalecer laços comunitários.
Sede tombada
Ao longo de sua trajetória, o Fica Ahí ocupou quatro sedes diferentes até se estabelecer, em 1954, na rua Marechal Deodoro, 368, no centro da cidade. O prédio, de linhas art déco e características protomodernistas, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae) em 2012, reconhecimento de seu valor como patrimônio cultural e espaço de memória afro-brasileira no Rio Grande do Sul.

Fica Ahí surge ligado ao Carnaval (Foto: Reprodução)
Em 1948, o cordão tornou-se clube carnavalesco; no ano seguinte, foi criada a Academia de Samba do Fica Ahí, que mais tarde seguiu trajetória própria. Em 1953, consolidou-se como clube cultural, ampliando seu papel social. Mesmo com o surgimento das escolas de samba e o desaparecimento de muitos cordões negros nas décadas seguintes, o Fica Ahí resistiu. Segundo a historiadora Fernanda Oliveira, ele reunia famílias negras em situação social mais estável, compondo um mosaico diverso de associações negras em Pelotas.
Raízes vivas
Celebrando o 105º aniversário, o Fica Ahí segue ativo como espaço de cultura, memória e resistência, testemunho vivo da contribuição negra à história da cidade. Mantendo vivas as raízes do Clube, desde o ano passado a diretoria retomou a realização do cordão carnavalesco.
Neste ano o cordão vai para as ruas no dia 7 de fevereiro, a partir das 18h, com concentração na rua Tiradentes esquina com 15 de Novembro. O evento ocorrerá em parceria com outro clube negro, o Clube Cultural Chove Não Molha, criado em 1919.
Fontes: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iphae); Clube Cultural Fica Ahí; Núcleo de Documentação Histórica da UFPel
Há 50 anos
Pão com tamanho padrão e folga aos domingos causou polêmica nas panificadoras
A panificação no município começou a ser alterada a partir de novas regulamentações. Surpreso com as novidades, imposta pelo poder público, o presidente do Sindicato dos Panificadores de Pelotas, José Carlos Oliveira, afirmou à imprensa que não tinha recebido nenhuma comunicação oficial a respeito da padronização do pão, por exemplo, nos primeiros dias de 1976.

Trabalhadores teriam
folgas aos domingos (Foto: Reprodução)
O líder de classe, em contato com o presidente do Sindicato dos Panificadores do Rio Grande do Sul, foi informado que o novo valor do pão deveria ser aplicado imediatamente, porém não determinou prazo para a padronização do produto. A explicação era simples: “tal medida encontra-se em fase de estudos de viabilidade”.
Preocupação era outra
A maior preocupação da classe, naquela época, era o fechamento das padarias aos domingos. Em uma reunião realizada pelo sindicato, a classe discutiu o assunto, mas não chegou a um consenso. Para Oliveira, seria interessante prolongar o atendimento aos sábados, até as 23h, para compensar em parte o fim do expediente aos domingos. A medida visava oferecer um descanso aos funcionários, nos finais de semana.
Fonte: Acervo Bibliotheca Pública Pelotense