Policiais militares começam a depor na Polícia Civil nesta terça-feira

Investigação

Policiais militares começam a depor na Polícia Civil nesta terça-feira

Imagens de câmeras mostram como se deu a abordagem, mas não esclarecem totalmente os fatos, segundo especialistas

Por

Policiais militares começam a depor na Polícia Civil nesta terça-feira
(Foto: Reprodução)

Rever as imagens das câmeras de segurança da propriedade rural da Família Nörmberg é sempre muito dolorido para Raquel, viúva do produtor Marco Daniel Nörnberg, 48, morto a tiros na madrugada do dia 15 após uma ação da Brigada Militar que buscava uma quadrilha.

O caso ganhou repercussão nacional no dia em que foi realizado um culto à vítima, na igreja São João. As imagens já estão anexadas às investigações da Corregedoria-Geral da Brigada Militar que já colheu depoimentos dos PMs envolvidos na ação. As oitivas da Polícia Civil começam nesta terça-feira (27). Para especialistas, as cenas podem colaborar, mas não são a única prova.

“Foi um dia muito difícil pra mim. Eu passei muito mal durante a reportagem. Parece que revivo os momentos”, confessa. O que se pode observar é que às 3h01min os cachorros começam a latir pela presença de pessoas no pátio. As imagens não são nítidas, porém dá para ver a aproximação do portão com luzes de lanternas. Dois minutos após, alguns policiais cercam a casa com algumas vozes de comando. Nesse momento um começa a gritar que é a polícia e para o “alvo” deitar no chão. A ordem foi dada várias vezes: “É a polícia magrão”.

Um primeiro som de estilhaço é percebido às 3h04min. Em meio ao comando, dez segundos depois, novo som. Na sequência dois tiros são efetuados. Às 3h04m56” mis cinco disparos. Depois mais uma sequência de tiros. Dez segundos após, um PMs diz: “Mexeu a cabeça”. E mais um tiro foi dado. Dois minutos depois, os PMs começam a sair da casa. Pouco depois se ouve um policial dizer que Raquel estava viva. Na continuação, dá para ouvir um envolvido dizer um palavrão ao perceber o erro.

A primeira viatura oficial só entra na propriedade às 3h32min, juntamente com a ambulância do Samu que permanece apenas sete minutos no local e vai embora sem dar informações aos familiares. Às 4h43min, a Polícia Civil já está no local e é quando os familiares conseguem ter notícias do casal e que Marcos teria sido morto. Segundo Raquel, ele não chegou a usar a espingarda. Ela ainda conseguiu reunir forças para não deixar nenhum policial se afastar da cena do crime. “É muito difícil, mas precisamos de ajuda para não cair no esquecimento.”

Análise técnica das imagens

Para o coordenador do Grupo Interdisciplinar de Trabalho e Estudos Criminais-Penitenciários (GITEP) e professor da Universidade Católica de Pelotas, Luiz Antônio Chies, os vídeos devem integrar o conjunto probatório das investigações e de eventuais processos judiciais. No entanto, ele pondera que, de forma isolada, as imagens não têm força suficiente para definir os fatos.

Segundo o professor, por se tratarem de câmeras externas, a qualidade dos áudios varia conforme a distância de quem fala em relação aos equipamentos. Algumas falas são audíveis, outras não, mas procedimentos periciais podem contribuir para maior precisão do conteúdo captado. Chies ressalta ainda que, embora os registros mostrem policiais se identificando como “polícia”, isso pouco altera, em sua avaliação, os equívocos do procedimento adotado. Para ele, a operação ocorreu de forma apressada, imprudente e sem as cautelas necessárias para uma ação bem-sucedida.

Investigação da Polícia Civil

A delegada Walquiria Meder esclarece que a investigação conduzida pela Polícia Civil abrange todas as circunstâncias do caso, mas a eventual responsabilização criminal ficará restrita ao evento morte. A análise do procedimento anterior que levou à diligência e de possíveis crimes ocorridos após a morte é atribuição da Corregedoria da Brigada Militar, por se tratar de questões disciplinares ou crimes militares.

De acordo com a delegada, os depoimentos dos policiais militares estão previstos para iniciar nesta terça, uma vez que as defesas acompanharam ontem as oitivas na Corregedoria. Ela reforça que os PMs têm o direito de prestar depoimento na presença de seus advogados.

O que diz o Departamento de Homicídios

O diretor da Divisão de Homicídios do Interior (DHI), delegado Thiago Carrijo Fraga, afirma que a investigação é sigilosa e extremamente complexa, em razão do horário, do ambiente com pouca iluminação e do número de pessoas envolvidas. Segundo ele, diversas oitivas já foram realizadas, especialmente com familiares da vítima.

O delegado informa que foram solicitadas várias perícias ao Instituto-Geral de Perícias (IGP), com destaque para a análise e o melhoramento de imagens e áudios. Ele explica que pelo menos 18 policiais participaram da ação. Ele ressalta que, apesar do clamor público, a investigação será conduzida com cautela e rigor técnico.

Sobre o laudo preliminar que aponta tatuagem de pólvora, o delegado esclarece que isso indica disparo a curta distância, o que não afasta, por si só, a hipótese de troca de tiros. As circunstâncias do disparo ainda estão sendo apuradas.

Fraga também contextualiza a origem da operação, explicando que ela decorreu de um roubo a residência em Pelotas, com a fuga dos suspeitos para o Paraná, onde foram presos. A partir disso, houve troca de informações entre policiais dos dois estados para tentar localizar produtos ilícitos relacionados ao crime.

Nota da Aspra-RS

Em nota, a Associação de Praças Policiais e Bombeiros Militares do Estado do Rio Grande do Sul (Aspra-RS) critica o uso do termo “execução”, considerando a expressão precipitada neste momento inicial. A entidade também esclarece que a classificação de disparo a curta distância não implica, necessariamente, execução, pois se trata de uma categoria técnica influenciada por diversos fatores.

Por fim, a associação afirma que os policiais se identificaram durante a averiguação e reforça que os profissionais têm direito à ampla defesa e ao contraditório, conforme garantido pela Constituição Federal, repudiando conteúdos sensacionalistas e ofensas dirigidas aos integrantes da corporação.

Acompanhe
nossas
redes sociais