A consolidação da transição do Brasil para o modelo administrativo de uma SAF traz de volta a Pelotas a influência direta de um dos maiores esportistas nascidos na cidade. Curiosamente, o retorno de Emerson Rosa, agora como responsável pelo futebol do Xavante em uma nova era, acontece uma década após o fim das atividades de um projeto ousado e bem sucedido em solo pelotense, apesar do curto tempo de operação: o Fragata Futebol Clube.
Idealizado e capitaneado pelo ex-volante da Seleção Brasileira, que vestiu as camisas do Paulista e do Brasil antes de sair para o Grêmio e depois para gigantes da Europa, o Fragata durou cerca de cinco anos. Período suficiente para construir uma estrutura elogiada por vários que a frequentaram e para alavancar carreiras que, dentro e fora dos gramados, firmaram-se no concorrido ambiente do futebol.
Construído na avenida Herbert Hadler, próximo às BRs 471 e 116, perto do coração do bairro onde Emerson cresceu, o centro de treinamento tinha dois campos de 11 com medidas oficiais e um gramado reduzido – que passou a contar com piso sintético -, dormitórios, refeitório, rouparia e sala de imprensa, fora as áreas livres e os espaços destinados à administração. Em dado momento, o Fragata empregava cerca de 35 funcionários.
Fundado oficialmente em janeiro de 2011, o projeto representou a primeira experiência do ex-jogador como gestor. O pelotense pendurou as chuteiras em 2009, ano em que defendeu Santos e Milan. “Foi um aprendizado muito grande. Fiquei muito tempo fora do Brasil e, quando voltei, escolhi minha cidade natal para fazer esse empreendimento. Colocar essa oportunidade que não tive quando criança e adolescente, ter um clube de formação. Via a dificuldade dos nossos clubes da cidade de formar, porque o foco sempre foi a equipe profissional”, relembra Emerson.

Cristian de Souza, hoje no Joinville, treinou o sub-17 do Fragata entre 2012 e 2014 (Foto: Ivanor Jr – JEC)
Terceira força do RS no sub-17
O Fragata entrou com força no cenário competitivo das categorias sub-15 e sub-17, as principais. Profissionais desembarcaram em Pelotas para trabalhar após experiências em grandes centros, como Rodrigo Almeida, que veio de Porto, Portugal. Cristian de Souza, hoje treinador do Joinville, chegou em 2012 junto com colegas ex-base do Grêmio, onde conheceram Emerson. E os resultados não demoraram para aparecer.
“Foi uma das melhores experiências que tive em nível de desenvolvimento de metodologia e conceito”, exalta Cristian. Sob a ótica do técnico, o Fragata se firmou como postulante a terceira força do Rio Grande do Sul no sub-17, atrás da dupla Gre-Nal e rivalizando com o conterrâneo Progresso e os caxienses – Caxias e Juventude. Na Copa Promissão, torneio nacionalmente relevante à época nessa categoria, o time pelotense atingiu as semifinais e acabou em quarto lugar em 2013. Naquela campanha, venceu o Flamengo por 4 a 0.
Cristian de Souza permaneceu no projeto até 2014, quando foi para o sub-17 do Figueirense. “A estrutura que o Fragata nos oferecia na época era fora do comum no interior. A gente montou uma equipe de trabalho de profissionais que até hoje nunca mais encontrei. De qualidade. Era uma turma nova, porém com bastante conhecimento. Vieram até mesmo brasileiros de fora do país. Oportunizamos, também, profissionais da cidade”, elogia.
O treinador relembra a parceria com Emerson, que vivia em Porto Alegre mas marcava presença constante em Pelotas. O irmão do ex-volante, Edson Rosa, tinha o cargo de supervisor técnico. A família toda, conforme os relatos, fazia questão de frequentar a rotina do Fragata. Todas as sextas-feiras, havia uma reunião para debater questões metodológicas, com a participação de Emerson.
Sobre os contatos com o proprietário do clube, Cristian relata que os dois conversavam muito a respeito do esporte. “Ele queria trazer uma ideia de futebol daquilo que tinha vivido fora do Brasil. Queria desenvolver conceitos bastante modernos. Marcação zonal, construção de três, times que tinham a posse de bola e que quando perdiam a posse, rapidamente recuperavam”, rememora o profissional.

Marciel foi pivô de pendência financeira envolvendo o Corinthians; impasse precedeu a paralisação do Fragata (Foto: Daniel Augusto Jr – Agência Corinthians)
O caso Marciel
Passaram pelo CT do Fragata alguns jogadores atualmente profissionais. O que mais gerou repercussão foi Marciel. O então lateral-esquerdo chegou a Pelotas para o sub-17 em 2012 após deixar a base do Grêmio. Antes da concretização da parceria do clube pelotense com a Roma, anunciada em novembro de 2014, Marciel, já transformado em volante, esteve nas categorias inferiores da equipe da capital italiana por empréstimo.
O meio-campista se transferiu ao Corinthians, onde se destacou na Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2015. Ficou por lá, subiu para o elenco profissional comandado por Tite e participou da campanha do título do Brasileirão da mesma temporada. Em setembro daquele ano, porém, Emerson se manifestou para reclamar uma dívida não paga pelo Timão – em torno de R$ 1,2 milhão por 50% dos direitos econômicos de Marciel.
A polêmica acabou se tornando uma das razões para o encerramento das atividades do Fragata, entre 2015 e 2016. Em entrevista ao UOL, na época, Emerson lamentou a demora para receber do Corinthians. “Será que vale a pena trabalhar tanto? Eu não quero mais passar por isso”, disse. Marciel seguiu carreira. Defendeu Cruzeiro, Ponte Preta, Oeste, Vitória, Juventude, Náutico, Remo, Caxias, CSA, Santo André e Ferroviário. Atualmente está no Hoàng Anh Gia Lai, do Vietnã.
Além do meio-campista, que hoje tem 30 anos, também passaram pelo Fragata nomes como o zagueiro Douglas Zielke e o volante Tom Abreu, ambos ex-Pelotas; o zagueiro Windsor, do Caxias; o lateral Otávio, emprestado pelo Brasil ao Inter-SM; e os atacantes Pedro Perotti, da Chapecoense, e Janderson, ex-Grêmio e Corinthians, atualmente no Vila Nova.
Capacidade fora das quatro linhas
Uma das premissas dos investidores do Consórcio Xavante, que está adquirindo 90% das ações da SAF do Brasil, é a valorização da mão de obra local. E quem fala da existência e do legado do Fragata uma década depois da paralisação das atividades converge para essa direção: o extracampo.
“Sempre falei: Pelotas é muito rica em profissionais, em pessoas capacitadas, em muitas áreas. O Fragata foi uma oportunidade para muitas dessas pessoas”, avalia Emerson.
Thiago Weisshahn era goleiro da equipe entre 2011 e 2014. Não seguiu carreira como atleta, mas a vivência no Fragata o fez escolher o futebol como profissão. Formou-se em Educação Física e virou treinador de goleiros, função que exerceu no Brasil ao longo da campanha do título da Copa Professor Ruy Carlos Ostermann em 2025.
“Só tenho coisas boas para falar. Em relação à estrutura, não poderia ser melhor. Não tem nenhum outro clube da cidade ou da região com uma estrutura como aquela, inclusive clubes profissionais”, diz Thiago. “Apesar de não ter trabalhado lá, acabo me considerando uma cria do Fragata”, resume.
Já Marcelo D’Avila jogou até o sub-14 no clube e também optou por se profissionalizar no meio do esporte. Bacharel em Educação Física, hoje é preparador físico do futsal do Marcílio Dias, em Itajaí (SC). “O Fragata era uma estrutura completamente anormal em Pelotas. Dormitórios de primeira qualidade, refeitórios, transporte, rouparia, tudo sem custo. Era um CT de primeiro escalão de Brasil”, relata.
Entre os vários profissionais de destaque forjados no projeto liderado por Emerson, aparecem ainda, por exemplo, Julian Tobar, auxiliar de Tiago Nunes na LDU, do Equador, e dois de funções relevantes no Internacional. Youssef Kanaan é coordenador do setor de análise de desempenho do Colorado, onde também trabalha Yuri Salenave.
“Uma coisa legal que o Fragata deixou, além de ter vários atletas formados, que hoje estão jogando em equipes pelo Brasil, profissionais de outras áreas, treinadores, preparadores físicos, treinadores de goleiros, espalhados, fazendo seu trabalho em outras equipes. Dá a entender que nossa cidade é muito boa de profissionais. Isso precisa ser explorado de maneira mais séria. A gente precisa explorar o que temos”, reforça Emerson.

Em 2017, Brasil e Fragata firmaram parceria para locação do terreno do CT por cinco anos (Foto: Carlos Insaurriaga)
Destino do terreno
O centro de treinamento do Fragata foi aprovado em 2012 pela Fifa como potencial sede de atividades de seleções durante a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil. Dezenas de locais integraram uma lista disponibilizada às federações nacionais, mas o CT em Pelotas acabou não sendo escolhido por nenhuma delas.
Anos depois, com o fim das atividades do Fragata, o espaço ganhou um novo destino. Em janeiro de 2017, o Brasil assinou um contrato de locação do CT. Em cerimônia com a presença de Aloisio da Rosa, pai de Emerson, e o então presidente do Rubro-Negro, Ricardo Fonseca, foi sacramentado um vínculo de cinco anos – não renovado.
Era a retomada das categorias de base do Brasil. O local passou a ser chamado de Centro de Formação de Atletas (CFA) Xavante. O clube da Baixada retornou às competições na base. Pelo CFA, passaram atletas como o goleiro Marcelo dal Soler, atualmente no Caxias; e os atacantes Chrigor, do Selangor, da Malásia; Cristian, do Al Bidda, do Catar; Fabrício, do Vitória; e Luiz Henrique, que em 2025 voltou ao Brasil e agora está no Porto Vitória (ES).
Hoje, a área do antigo Fragata serve a uma arrozeira.
