Mercado de arroz da Zona Sul observa desdobramentos da crise na Venezuela

Impactos

Mercado de arroz da Zona Sul observa desdobramentos da crise na Venezuela

Especialistas analisam possíveis reflexos econômicos da instabilidade política no país vizinho

Por

Mercado de arroz da Zona Sul observa desdobramentos da crise na Venezuela
Expectativa é de queda de 15% na produção brasileira de arroz. (Foto: Jô Folha)

A crise política na Venezuela, marcada pela ação militar dos Estados Unidos e a mudança no comando do governo, deve gerar impactos na economia internacional, inclusive no Brasil. Além da questão do petróleo, um fator diretamente relacionado ao Sul do Rio Grande do Sul chama atenção: a Venezuela é um dos maiores importadores de arroz brasileiro em casca.

De acordo com o presidente da Federarroz, Denis Nunes, a expectativa é de queda de 15% na produção brasileira de arroz em 2025, ficando abaixo de 11 milhões de toneladas e mais próxima do consumo interno. “É fundamental para evitar a ampliação dos estoques, que já estão elevados”, afirma. Sobre a situação venezuelana, ele diz que ainda não é possível antecipar desdobramentos, mas acredita que o setor não será prejudicado. “Precisamos de estabilidade política e segurança jurídica, mas acreditamos que o fluxo continuará e, quem sabe, até possa melhorar”.

Para o professor de Geopolítica do curso de Relações Internacionais da UFPel, Charles Pennaforte, os impactos sobre a economia brasileira decorrem, sobretudo, das consequências da atuação dos Estados Unidos no cenário internacional. Segundo ele, a ofensiva norte-americana tende a gerar instabilidade global, com reflexos nos mercados. “Isso inevitavelmente pode gerar elevação no preço do barril do petróleo, aumento do dólar e fuga de capitais para ativos considerados mais seguros, como o ouro”, afirmou.

No contexto brasileiro, e especialmente do Rio Grande do Sul, Pennaforte alerta para a vulnerabilidade decorrente da dependência de produtos primários. “Assim como o Brasil, o Rio Grande do Sul tem uma economia fortemente baseada no agro e, por isso, fica suscetível a essas alterações”, afirma. Ele cita, como exemplo, a importância da Venezuela como parceira comercial, especialmente na importação de arroz. “Quando você tem um mercado muito concentrado em poucos compradores, qualquer fator externo gera problemas”, observa.

Petróleo e transição energética

Para Pennaforte, a localização da Venezuela é estratégica por estar próxima ao Golfo do México. Ele também ressalta que o petróleo venezuelano não é de boa qualidade e só consegue ser processado de forma mais eficiente em refinarias dos Estados Unidos, o que torna a exploração mais voltada à economia americana.

Ao abordar a transição energética, Pennaforte afirma que o processo não será rápido. “Plásticos e inúmeros produtos do nosso cotidiano são derivados do petróleo”, explica. Mesmo com redução no uso para transporte, o petróleo deverá seguir central na economia mundial por décadas. O professor avalia que os Estados Unidos dificilmente liderarão uma transição profunda, já que a economia do país é baseada nessa matéria-prima há mais de 100 anos, especialmente por conta da indústria automobilística – e manter a gasolina barata é essencial para esse modelo.

O professor também lembra que a disputa por petróleo está historicamente associada a intervenções internacionais. “Todos os países que têm grandes reservas já sofreram algum tipo de intervenção: Iraque, Líbia, Síria e, agora, Venezuela. O Irã tende a ser o próximo”, avalia. Ainda, ele afirma que o cenário tende a se intensificar nos próximos anos. “Mesmo que Trump não concorra a um terceiro mandato, se conseguir emplacar alguém com a mesma linha de pensamento, teremos um período ainda mais conturbado daqui para frente”, conclui.

Acompanhe
nossas
redes sociais