Nos primeiros quatro dias do ano, Pelotas registrou o pedido de 30 Medidas Protetivas de Urgência (MPU). São 7,5 solicitações por dia, uma a cada 3,2 horas, o que ultrapassa a média de 2025 que ficou em 5,6 MPUs por dia, totalizando 2.048 encaminhamentos. Atualmente estão em vigor na Vara da Violência Doméstica 907 ordens judiciais que limita a aproximação dos agressores de suas vítimas. Esta é uma realidade que não recua, embora toda a rede de enfrentamento.
Um exemplo foi o atendimento feito pela Brigada Militar no bairro Três Vendas. A vítima havia fugido para outro endereço e contou à polícia que o seu agressor a pegou pelo pescoço exigindo sexo contra a vontade. Que ele a mantinha em cárcere privado, em troca de sexo, e que somente poderia sair daquele local após satisfazer a sua própria vontade. O indiciado colocou um garfo de churrasco no pescoço da vítima, ameaçando-a de morte caso não retornasse para dentro do imóvel. A mulher relatou ainda que sofre agressões físicas e verbais diárias e que já teve queimaduras pelo corpo, que deixaram cicatrizes.
A MPU solicitada por meio do atendimento da Brigada Militar foi a alternativa encontrada pela vítima para se manter em segurança. No caso, a autoridade policial determinou a prisão em flagrante do acusado. A denúncia e a coragem da mulher viabilizaram ações que buscam evitar o desfecho mais grave: o feminicídio, crime que teve um registro em Pelotas ao longo de todo o ano de 2025.
Segundo a secretária da Mulher, Marielda Medeiros, embora o número de feminicídios seja considerado baixo, o volume de medidas protetivas revela a dimensão da violência cotidiana. “O enfrentamento em 2026 passa por seguir informando, formando e divulgando os serviços da Rede de Proteção à Mulher. Muitas violências não são apenas físicas, mas psicológicas, patrimoniais e também vicárias”, explica. Neste último tipo, os agressores usam os filhos para se vingar das mulheres.
Um exemplo recente, registrado na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), é de um caso em que o agressor tentou coagir a vítima a retirar a medida protetiva utilizando o filho do casal como intermediário. “Isso também é violência. Quando o agressor usa os filhos para atingir emocionalmente a mulher, chamamos de violência vicária”, destaca.
Propagar as informações
O aumento no número de registros também está relacionado à ampliação das políticas públicas e ao fortalecimento da rede de atendimento. Em entrevista à Rádio Pelotense, o ex-comandante do 4º Batalhão da Brigada Militar, tenente-coronel Paulo Renato Scherdien, avalia que o crescimento dos dados não significa necessariamente mais violência, mas maior encorajamento das vítimas para denunciar. “Antigamente, a violência doméstica não era tratada como hoje. A legislação não permitia a intervenção imediata. Hoje, com patrulhas especializadas, delegacias atuantes, Ministério Público e Judiciário, as mulheres se sentem mais seguras para buscar ajuda”, afirma.
Ele ressalta que a Patrulha Maria da Penha exerce papel fundamental na prevenção. “Além do atendimento inicial, há o acompanhamento, as visitas e o acolhimento contínuo. A mulher tem contato direto com a patrulha e pode acionar a qualquer sinal de risco. Isso salva-vidas”, pontua.
Atualmente, o 4º BPM conta com patrulha permanente, atuando diariamente com viatura exclusiva para o acompanhamento de casos com medida protetiva. “Todos os policiais são treinados para o atendimento em situações de crise, mas a Patrulha Maria da Penha faz esse trabalho próximo, de escuta e monitoramento”, acrescenta o ex-comandante.
Para a secretária Marielda Medeiros, o desafio de 2026 é reduzir os números por meio da informação e do fortalecimento da rede. “A gente sabe que não é uma mudança imediata, mas precisamos seguir divulgando os serviços, orientando as mulheres e atuando de forma integrada para que menos vidas sejam colocadas em risco”, conclui.
Cerrito
Ciente de que estaria protegida, uma mulher procurou o pelotão da Brigada Militar de Pedro Osório, após ser agredida pelo companheiro, na residência em Cerrito. A vítima apresentou lesão em um dos braços, conforme laudo médico, manifestou desejo de representar criminalmente e solicitou Medida Protetiva de Urgência. O suspeito fugiu antes da chegada da polícia e não foi localizado.
