O acidente da última sexta-feira deixará cicatrizes eternas na Zona Sul. É o maior registrado no trecho rodoviário de Pelotas. E, de toda tragédia, é infelizmente preciso tirar aprendizados. Olhar para os fatos, compreender as causas e consequências e agir para que não se repita. Em uma região que vê na logística seu grande potencial do desenvolvimento, é preciso que autoridades se debrucem nestes problemas para que eles sejam identificados e corrigidos, sob pena de corrermos um sério risco de repetição.
É sabido que a tragédia tem causa clara. Para além da questão pontual, que será investigada pela Polícia Civil no âmbito criminal, a falta de duplicação da BR-116, obra prestes a completar 14 anos, com um atraso de nove, é a razão por trás disso. Quatro presidentes passaram pelo Palácio do Planalto, diversos ministros e dezenas, quiçá centenas de outras figuras podiam ter intervido e não o fizeram. Quando há batida frontal em trecho que deveria estar duplicado, mas não está, a culpa é também de quem se omitiu. Em pista dupla, as 11 vítimas estariam vivas.
Diante deste cenário, a omissão continua tem apenas um diagnóstico: cumplicidade. Faltam 15% das obras, pouco mais de 30 quilômetros. O Dnit, no ano passado, já dizia que não tem orçamento para que ela seja concluída neste ano. Ou seja, fica para o ano que vem. Talvez um quinto presidente venha inaugurar, cortar a fitinha e sorrir em uma obra com uma média, até aqui, de absurdos 12 quilômetros por ano. Mais ou menos mil metros por mês.
O fortalecimento da rota portuária é previsto. Uma nova concessão vem aí, com edital previsto para maio e leilão para agosto. Neste cenário, é preciso refletir. Haverá aumento do fluxo de veículos, principalmente de caminhões. A infraestrutura de uma obra pensada há mais de uma década talvez já fique ultrapassada. Pensar constantemente as rodovias é pensar em uma Zona Sul forte, mas também – e principalmente – em salvar vidas. Em evitar tragédias evitáveis, como a última sexta-feira. O papel do político não é apenas sorrir no anúncio e inauguração de obras, é garantir que elas sejam úteis e ágeis.