Pelotas, historicamente reconhecida pela tradição de seus doces e pela arquitetura neoclássica, consolidou-se na última década como um dos principais polos de inovação do Brasil. O epicentro desta transformação é o Pelotas Parque Tecnológico (PPT), que celebrará o décimo aniversário, em setembro deste ano. O complexo, que nasceu sob o nome de Tecnosul em 2010, prepara-se agora para dar um novo salto, desta vez em direção à biotecnologia.
A Tecnosul é uma associação privada sem fins lucrativos, que faz a gestão do Parque. A criação da entidade andou quase que paralelamente à aquisição, em novembro de 2011, pela prefeitura, do prédio onde hoje o Parque está instalado, na avenida Domingos de Almeida, 1.785.
Porém o processo de criação começou em torno de 2008/2009. O Pelotas Parque Tecnológico surgiu com o objetivo de melhorar o ecossistema de inovação na cidade. “Pelotas não tinha um parque tecnológico, nem dentro das universidades. Então governo (prefeitura), instituições de ensino e pesquisa e entidades empresariais se reuniram pensando em um parque diferente, onde as universidades estivessem dentro”, conta a diretora executiva do PPT, Rosâni Ribeiro, que assumiu a função em 2018.
Na época, o foco inicial do Tecnosul era fomentar áreas com vocação natural da cidade: tecnologia da informação, saúde e indústria criativa. As obras de adaptação do espaço começaram em 2013 e em 16 de setembro de 2016, o PPT foi oficialmente inaugurado. Com o tempo, a infraestrutura de 7 mil m² (sendo 5 mil m² de área construída) passou a abrigar setores ainda mais complexos, como biotecnologia, automação e inteligência artificial.
Atualmente, o Parque abriga 65 empresas, chamadas de residentes, e opera sob o modelo de cooperação entre universidades Federal e Católica de Pelotas e com o Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), empresas de base tecnológica e o poder público. Essa sinergia colocou Pelotas na 5ª posição no Rio Grande do Sul em número de startups, representando quase 4% de todo o ecossistema de inovação gaúcho.
As próprias instituições de ensino tem suas incubadoras tecnológicas dentro do Parque, são elas: Conectar/UFPel, CiemSul/UCPel. Além de unir outras organizações como o Candy Valley – Grupo de empreendedores de startups da região de Pelotas; Coplace Coworking; UniSenac e IFSul.
Salas para diferente atividades
O ingresso de uma nova residente é por meio de edital. No local as empresas alugam seu espaço, mas não pagam condomínio. O complexo ainda tem salas para treinamento e auditório que podem ser alugados por outras empresas ou entidades. Rosâni explica que todo o recurso que entra é reinvestido no próprio PPT. “A gente tem salas que vão de 13 metros quadrados até 140 metros quadrados. Agora estamos com empresas que cresceram e querem espaços maiores, também temos as que estão saindo. Essa é a dinâmica do Parque”, fala.
Além do espaço, os residentes são beneficiados com o contato com as instituições de ensino. Há ainda o programa de capacitação e consultorias para empreendedores chamado Inovapel. “É aberto a toda comunidade, mas priorizamos os residentes, e os próprios eventos realizados aqui, a gente coloca os produtos desenvolvidos com os parceiros estratégicos”, explica a diretora.
O lado mais conservador
Mas ainda falta em Pelotas, por exemplo, uma aceleradora, comenta Rosâni. Para suprir essa deficiência, a Tecnosul busca trazer para o Parque informações e aceleradoras de outros locais, bem como instituições financeiras públicas de fomento, como BRDE e Badesul.
A diretora explica que uma aceleradora é um investidor ou um grupo de investidores que coloca recursos de risco para apoiar determinados projetos de startups. “Pelotas é muito conservadora. Tem um grupo de empresários que tem muitos recursos, mas preferem investir em imóveis ou em bancos, não colocam dinheiro em uma aceleradora, que é um recurso de risco, mas quando dá certo, que é o caso da Melhor Envio, dá muito dinheiro”, comenta.
Pioneirismo e Segurança Jurídica
O ano de 2025 marcou um avanço institucional histórico. Em 15 de dezembro, o Conselho de Administração do Tecnosul aprovou sua própria Política de Inovação, tornando o Pelotas Parque Tecnológico o primeiro do Brasil a contar com um instrumento próprio, aprovado e vigente. A ação pioneira traz segurança jurídica para temas como propriedade intelectual e transferência de tecnologia.
Essa medida foi a primeira ação concreta após a sanção da Lei Municipal de Inovação (Lei n° 7.493/2025). “A Política de Inovação aponta como o Parque vai tratar as parcerias, novas empresas, a parte de propriedade intelectual, o parque é também uma Instituição de Ciência, Tecnologia e Inovação (ICT). Temos que saber como o Parque se remunera de royalties, isso nos fortalece como uma ICT privada. Foi bem oportuno, porque vamos colocar em prática junto com a Lei Municipal de Inovação”, explica Rosâni.
Cases de Sucesso
A importância do Parque para o município é tangível através das histórias de quem começou ali. O maior exemplo de sucesso é o da startup Melhor Envio, fundada em 2015 dentro do ecossistema do parque. A empresa de logística cresceu até ser vendida por cerca de R$83 milhões em 2020, tornando-se uma líder nacional.
Hoje, o fundador do Melhor Envio, Éder Medeiros, está de volta ao Parque criando outros projetos, como a Maker Market, uma startup que propõe a produção sob demanda via impressão 3D, conectando designers e lojistas.
Atualmente, entre as residentes melhor posicionadas estão a Fácil Consulta, que está em vários estados. Esta startup faz a intermediação entre o paciente e o atendimento médico privado. Rosâni ainda fala da Chatlabs, que trabalha com software de vendas pelo whatsapp, da Aggrandize e Acanto, com tecnologia na área médica, Cigam, que atua na área de tecnologia de informação.
Futuro: Saúde e Biotecnologia
O impacto do PPT não se restringe apenas ao software. Um dos projetos mais aguardados para os próximos anos é o Hub de Inovação em Saúde e Biotecnologia. Em parceria com a UFPel e a empresa LifeMed, o hub tornará Pelotas a primeira cidade do país com espaços dedicados ao desenvolvimento de equipamentos hospitalares e produtos biotecnológicos baseados em pesquisa local.
“Percebemos que deveríamos investir mais nessa área de saúde e biotecnologia. Conseguimos por meio de um edital da Finep para expansão de Parques, apresentamos um projeto junto com a Fundação Delfim Mendes, da UFPel, e o APL da Saúde, e a LifeMed. Aqui não tínhamos mais espaço físico. Hoje Pelotas é muito forte nessa área de saúde, mas os alunos que querem investir em inovação, não conseguem fazer isso nos laboratórios das universidades”, argumenta.
Para a diretora executiva do Parque, Rosâni Ribeiro, o momento é de maturidade. Projetos como o Robopel e a Arena da Inovação seguem sendo ponte entre futuros empreendedores ou para quem já empreende e quem investe. A partir deste ano, com a instituição do seu Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), responsável por gerir temas como propriedade intelectual, e a busca por recursos do Fundo Municipal de Inovação, o Pelotas Parque Tecnológico reafirma-se como o motor que transforma o conhecimento acadêmico em desenvolvimento econômico real para a região Sul do Estado.
Memorial
O prédio onde está instalado o Parque Tecnológico tem inspiração no sistema construtivo desenvolvido pelo uruguaio Eladio Dieste (1917-2000). No início da década de 1990, o escritório do engenheiro e arquiteto colaborou diretamente com o projeto, o que conferiu à obra características marcantes de seu trabalho, premiado e reconhecido internacionalmente.
Entre os elementos arquitetônicos associados a Dieste destacam-se a cobertura em curvatura, o uso de tijolos cerâmicos aparentes e a torre vazada que abriga a caixa d’água. Além de preservada, a proposta original é valorizada e celebrada por meio de um memorial dedicado à vida e à obra do arquiteto uruguaio.
