O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou neste sábado (3) que os EUA irão governar a Venezuela após a captura de Nicolás Maduro, em uma ofensiva militar de grande escala realizada durante a madrugada. Segundo ele, o país ficará sob administração americana até que seja concluída uma “transição segura, adequada e criteriosa”, sem prazo definido.
“Vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura. Não queremos que outra pessoa assuma o poder e que a situação se repita por muitos anos”, declarou Trump durante coletiva de imprensa em Mar-a-Lago, na Flórida. De acordo com o presidente, caberá aos Estados Unidos decidir quando o controle será devolvido aos venezuelanos.
A incursão militar provocou explosões em Caracas e em outras regiões do país, com registro de colunas de fumaça e cortes de energia. Entre os alvos atingidos estão o porto de La Guaira, o aeroporto de Higuerote e a Base Aérea de La Carlota, na capital venezuelana.
Trump afirmou que estão prontos para lançar um segundo ataque “muito maior”, caso considerem necessário. Também destacou o interesse no setor petrolífero venezuelano, classificado como um “fracasso”, afirmando que empresas americanas irão investir bilhões no país. “Essa parceria vai tornar os venezuelanos ricos, independentes e seguros”, disse.
O presidente voltou a chamar Maduro de “ditador ilegítimo” e afirmou que “o povo venezuelano está livre novamente”. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, descreveu a ação como uma “grande operação conjunta”, enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, classificou Maduro como “fugitivo da justiça americana”.
Cenário preocupa especialistas
Para o professor de Relações Internacionais da UFPel, Antônio Cruz, o ataque deve ser analisado além do discurso oficial e dentro de uma lógica histórica da política internacional. “Nem sempre a política internacional se faz de forma transparente”, afirmou, ao comparar a situação atual a outros episódios em que ações foram justificadas por interesses que, mais tarde, se mostraram questionáveis.
Segundo Cruz, Maduro carece de um apoio da população, visto que as eleições foram marcadas por acusações de fraude e contestação internacional. Ainda assim, para o professor, o principal interesse norte-americano está nas reservas energéticas do país. “A Venezuela possui hoje, disparadamente, as maiores reservas de petróleo comprovadas do mundo”, afirmou. Segundo ele, em um contexto que o atual governo dos EUA não pretende abandonar os combustíveis fósseis, o controle torna-se estratégico.
Do ponto de vista jurídico, o professor é categórico ao afirmar que o ataque não tem legitimidade. Para Cruz, as acusações de narcotráfico feitas por Washington não se sustentam, já que a Venezuela está longe de ser o maior exportador de drogas para os Estados Unidos. Ele também lembrou que, mesmo durante tensão, os dois países mantiveram relações comerciais no setor petrolífero.
Sobre os próximos desdobramentos, Cruz avalia que o cenário é de incerteza. Segundo ele, embora a Constituição preveja a sucessão em caso de ausência do presidente, não se sabe qual será o nível de apoio que as forças armadas vão demonstrar em relação ao governo. Por fim, Cruz avaliou que o episódio se insere em um contexto internacional mais amplo de instabilidade. “Vivemos um período da história bastante perigoso”, afirmou, acrescentando que tensões internas nas grandes potências tendem a se refletir em conflitos externos. “Os próximos meses e anos não serão tempos suaves.”
Em nota, o governo do Brasil informou que não há movimentação anormal na fronteira brasileira com a Venezuela e que não há registros de brasileiros entre possíveis vítimas. A diplomacia brasileira, segundo o Ministério das Relações Exteriores, permanece ativa, com contatos contínuos com homólogos internacionais e acompanhamento da situação interna por meio da Embaixada do Brasil na Venezuela. Uma nova reunião está prevista para o final da tarde para atualização da situação.
Família segura, mas futuro incerto
Morando há oito anos no Brasil, a venezuelana Gioconda Alfaro acompanhou à distância os ataques dos Estados Unidos. Segundo ela, as primeiras informações chegaram pelas redes sociais e foram confirmadas por familiares que seguem no país.
Ela afirma que conseguiu manter contato com parentes e amigos após os bombardeios e que, apesar da apreensão, sua família não mora nas regiões diretamente atingidas. Ainda assim, o medo sempre esteve presente. “Minha família mora perto de uma base militar. Sempre foi um temor que essa base fosse atingida, mas, graças a Deus, eles estão bem”, relatou.
Ao avaliar o governo de Nicolás Maduro, Gioconda foi enfática. “Um poder mantido com opressão, sangue e lágrimas do povo merece chegar ao fim e pagar o preço pelo que foi feito”, declarou. Sobre a ação dos Estados Unidos, ela reconhece o caráter estratégico da operação, mas faz ressalvas. “É importante respeitar a soberania de cada país e manter a diplomacia regional”.
Para ela, o futuro da Venezuela é incerto. “Enquanto não estiverem claros os próximos passos para uma transição pacífica, o temor continua”, afirmou. Para os próximos dias, ela prevê um cenário de instabilidade social. “Já há supermercados lotados, as pessoas estão se preparando para ficar em casa diante de possíveis confrontos”, relatou. Ainda assim, observa um sentimento contraditório entre a população. “O povo também está em silêncio, por medo, mas ao mesmo tempo comemorando este dia histórico”, concluiu.