Uma das definições da palavra “acidente” é “imprevisto”. A Zona Sul inicia seu ano com mais uma tragédia, que deixou mortos e acabou com sonhos. Pessoas que, no dia anterior, faziam seus planos para o novo ano tiveram seu caminho encerrado por mais uma tragédia no trânsito. Mas não é possível afirmar que foi algo imprevisto. Pelo contrário. Há décadas se fala que a falta da duplicação na BR-116 é responsável por ceifar vidas anualmente. Todos sabem que a pista simples favorece a desgraça. E, diante da inércia do poder público, mais uma vez, choramos os nossos mortos e lamentamos a demora para a duplicação.
A duplicação da BR-116 começou em agosto de 2012, com previsão de ser concluída em 2017. Um trecho de 211 quilômetros. Até agora, foram cerca de 180 quilômetros. Um desempenho pífio, em quase 14 anos. E não há régua ideológica para isso: já são quatro presidentes da República, de todas as vertentes. Dilma, Temer, Bolsonaro e Lula. E adentrará mais um mandato, já que há a certeza que não será concluída esse ano. Ou seja, vai a 2027. Quinze anos. Dez de atraso. Uma vergonha pública.
O acidente desta sexta-feira foi mais um episódio sangrento na conta de um desleixo dos diversos ministros, dos quatro presidentes, de todos os políticos e todas as autoridades que poderiam fazer algo e não fizeram. A despeito da intenção ou não, a consequência é óbvia: o dinheiro não foi para onde devia ir, a estrada seguiu com estrutura aquém do necessário, os acidentes ocorrem e gente morre.
O momento é de luto, sofrimento e lamentação, mas deve ser também de atenção. Em dois meses, encerra-se o contrato de concessão à Ecovias Sul. Diante de tudo isso, os serviços de socorro e guincho ficarão por conta dos municípios. O Dnit já avisou que não é responsável por isso. Se mais uma tragédia acontecer em uma estrada problemática como a BR-116, quem será responsável por atender? E quem será o responsável por ter deixado isso acontecer? Há data e hora para o fim do serviço de suporte para a concessão e até agora não há as definições mais necessárias e urgentes. Estamos a mercê de mais uma tragédia a qualquer momento, mas jamais de um acidente. Acidente é imprevisto e este cenário é previsível.
