“Nós, rio-grandinos, precisamos acreditar mais em nós”

balanço de 2025

“Nós, rio-grandinos, precisamos acreditar mais em nós”

Na virada do ano, Darlene Pereira faz o balanço do primeiro ano de mandato em Rio Grande, reconhece pendências e decisões duras, e projeta 2026 entre execução de projetos e uma agenda de cuidados que, segundo ela, também se mede na rua

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“Nós, rio-grandinos, precisamos acreditar mais em nós”
Darlene Pereira é a primeira mulher prefeita em Rio Grande (Foto: Jô Folha)

Na sala de reuniões do Paço Municipal, em Rio Grande, a prefeita Darlene Pereira (PT) recebeu a equipe da Rádio Pelotense e do Jornal A Hora do Sul para fazer o balanço do primeiro ano de mandato e projetar 2026. A entrevista teve tom de prestação de contas e de virada de página. Vieram números, vieram prioridades, vieram obras e cronogramas. E vieram também as partes em que a prefeita não se esquivou do que ficou pelo caminho, nem do que exigiu decisão dura, porque o primeiro ano, como ela descreveu, foi de organizar e, ao mesmo tempo, de escolher.

Mesmo com a lista de obras e projetos, o eixo que ela mais puxou foi outro. “Retomar a autoestima” da população. Não como decreto, segundo ela, e nem como peça de marketing, mas como sensação que começa a aparecer quando a cidade volta a se usar.

A conversa também passou pelo Rio Grande de escala grande. Polo naval, transição energética, novos investimentos e infraestrutura. E, para não deixar o balanço preso ao que dá foto, a prefeita também trouxe o lado áspero do primeiro ano. Citou decisões que disse não ter querido tomar, mas que considerou necessárias.

“Nós, rio-grandinos, precisamos acreditar mais em nós”


Prefeitura defende diálogo com governo federal para melhorar estruturas viárias (Foto: Jô Folha)

Como foi o primeiro ano de mandato?
Passando a régua, que bom que a gente venceu o ano de 2025. Foi um ano de grandes desafios, foi um ano de organizar a casa, de ampliar o trabalho da gestão administrativa, com a organização de novas secretarias, de novos serviços sendo oferecidos para a comunidade. Enfrentamos um déficit que não era um déficit pequeno, conseguimos fechar o ano bem, conseguimos pagar as nossas contas, pagar os salários e, mais do que isso, já conseguimos, no final de 2025, fazer um reconhecimento para os servidores com a implantação do que a gente chama carinhosamente do 13º no Vale Alimentação, que é um bônus para os servidores no mês de dezembro, assim como já está na Câmara de Vereadores o reajuste anual de 4,18% para 2026. Assim como conseguimos também ampliar os quadros, contratando. Foram mais de 150 pessoas chamadas de concurso, fora os contratos que fizemos emergenciais e contratos temporários para atender melhor os serviços do nosso município. E eu tinha isso como meta: organizar a casa, melhorar e qualificar os serviços, seja os serviços de educação, de saúde, da área da assistência, mas, principalmente, a área da limpeza, da gestão da limpeza pública, que foi um problema muito grande que enfrentamos já no início da gestão. E hoje podemos estar concluindo, virando o ano já numa outra condição a nossa cidade.

Os assuntos de infraestrutura e desenvolvimento econômico chamam a atenção pelo impacto que tem na região. Mas, de modo geral, a relação que as pessoas estão tendo com a própria cidade faz parte do trabalho da prefeita retomar isso?
Nós sabíamos que nós, rio-grandinos, precisamos acreditar mais em nós, acreditar na nossa cidade, que o Rio Grande vale a pena. E eu tenho escutado de muita gente que é de fora dizendo isso: ‘Como é que vocês não enxergam a cidade que vocês têm?’. E que coisa boa hoje, quando eu vejo que muita gente passou a enxergar com o evento do Natal nas praças, o resgate da autoestima, o resgate da nossa memória afetiva da Praça Tamandaré, que é a maior praça do estado do Rio Grande do Sul, e a gente poder trazer o povo, trazer a população para a praça para que usufrua do direito à cidade. Mas outras ações. Então, 26 é o ano do início das obras do Polo Naval, e a gente está com expectativa agora, em fevereiro, que a refinaria Rio-Grandense já vai começar, em caráter experimental, mas a produzir o combustível verde, a base do milho. Uma empresa de hidrogênio verde que está vindo se instalar e que, agora, em janeiro, vem para fazer esse anúncio oficial, mas que já está com a tratativa toda encaminhada. E eu estou dando esses exemplos para que a comunidade enxergue que a gente passou um ano captando, buscando atrair, mostrando o potencial de Rio Grande, e que 26 já começa o resultado disso.

Quais foram as três melhores entregas?
São várias, às vezes são pequenas, mas são de extremo significado, começando pela saúde. O posto de saúde da Querência, que é um bairro do Cassino, é um posto de saúde em que a obra começou em 2020 e que hoje a gente pode entregar. O trabalho com essa obra começou em 2018, e eu participei disso, por isso que ela me marca muito. Na Ilha da Torotama, a gente entregou uma quadra poliesportiva. E o que é legal é saber que nós não paramos as obras quando assumimos o governo. São obras que estavam iniciadas do governo passado, e a gente entendeu e respeitou a importância disso para a comunidade, e demos continuidade a todas essas obras. Uma escola de educação infantil já concluída em Povo Novo, que não tinha nenhuma escola.

Quais entregas não foram possíveis?
A transposição do Canalete; a Rua Major Carlos Pinto com a Carlos Gomes; a recuperação da rua Carlos Gomes, que foi uma obra que teve que ser paralisada em função que a empresa não atendeu às exigências. É uma obra de Centro da cidade, mas que a gente pretende estar revisando isso para 2026. Uma outra coisa que não é obra, mas que é muito importante, é a licitação do transporte coletivo, que eu queria ter terminado em 2025 e não consegui, e quero fazer isso já agora, início de 2026. E a outra também, que não é a obra, é a licitação da questão dos resíduos. Nós trabalhamos muito: o recolhimento do lixo, o projeto da coleta seletiva, da coleta programada. Foram entregas muito importantes para a comunidade, mas a gente ainda quer avançar mais, buscando um novo método, uma nova forma de tratamento dos resíduos sólidos, e a gente já está com isso sendo encaminhado para a contratação.


Para Darlene, 2026 será o ano de ver o resultado das captações feitas em 2025 (Foto: Jô Folha)

Qual foi a decisão que mais doeu?
Foram duas bem difíceis, assim, que eu não gostaria de ter tomado, mas, pela necessidade, a gente sabe que precisa. Uma delas foi a questão do Arroio das Cabeças, foi a retirada de moradores que estavam numa zona de risco. Não, porque tem uma história de vida ali, e a gente ainda não estava com uma estrutura pronta para entregar para essa comunidade, as casas que estão previstas para eles ainda estão em construção. Nós estamos hoje pagando o aluguel social, e a gente sabe que isso mexe com a história das pessoas. Foi muito difícil lidar com isso. E a outra foi agora, mais para o final do ano, que é a retirada das carroças da área urbana da cidade, as carroças que trabalham com o frete. Foi muito difícil, foi um trabalho bem dialogado com os carroceiros, mas isso é um instrumento de trabalho das pessoas, que a gente não quer que seja, porque a gente não quer o sacrifício dos animais, mas a gente respeita a história e o sustento daquelas famílias. Essas foram duas decisões bem difíceis e, como gestora, eu precisei tomar, e a gente vem buscando as melhores alternativas de mitigar o resultado disso e de dar apoio para essas pessoas.

O presidente Lula estará em Rio Grande em janeiro. Qual será o pedido para a cidade?
Primeiro eu vou agradecer, porque, quando ele veio em fevereiro do ano passado, eu fiz um pedido mais firme, que era a questão da duplicação do Lote 4 da BR-392. E, a partir desse pedido, a gente continuou, eu falo “a gente” porque não fui só eu. Eu, deputado Alexandre [Lindenmeyer, PT], as forças empresariais da nossa cidade, entregamos um documento assinado por muita gente ali, e é uma luta que não era só minha, já era de outros que vieram antes de mim, e hoje essa demanda está no PAC projetos, a realização do projeto de engenharia para a duplicação do lote 4. Eu quero agradecer ao presidente Lula pela sensibilidade.

Mas, especialmente, ele vem porque será feita a entrega de 1.126 apartamentos para famílias. E eu escutei de uma família na praça que me dizia: ‘O último presente que eu quero pedir, prefeita, é a minha casa, é o meu apartamento ali na junção’. Serão mais de 1,1 mil famílias, que terão a sua casa. E ali naquela região nós vamos construir um ginásio poliesportivo, um posto de saúde, uma nova escola de ensino fundamental, uma parceria com a Fiergs, que é uma nova escola técnica do Senai, pela importância do polo naval e pelo desenvolvimento que a nossa cidade merece. Isso é resultado de um trabalho também de parceria com os nossos deputados, que foram incansáveis.

Chama a atenção em Rio Grande, até no comparativo com Pelotas, o bom diálogo e o entendimento com lideranças empresariais da cidade, algo que nem sempre acontece em um governo de esquerda. Como isso foi construído?
Eu acho que essa é uma compreensão de projeto de cidade que a gente tem, onde cada um, e eu costumo dizer para os empresários, assim como eu digo para a academia, nós temos papéis diferentes. Quem trabalha na economia, a gente entende, eles precisam gerar economia, precisam gerar dinheiro, mas para nós eles são fundamentais também. Porque eles geram impostos, eles geram riqueza, e com esse recurso eu consigo construir a política pública. Esse é o meu entendimento básico. Então, não são inimigos. Nós não somos inimigos, nós queremos o bem. Porque, quando a cidade vai bem, o empresário também se beneficia. Agora, nos eventos de final de ano, a gente viu lojas abertas no dia 24 de dezembro até a meia-noite. Por quê? Porque tinha festa, porque a praça estava ali. Isso atendeu os empresários. Quando a gente fala, a duplicação do lote 4 da 392 vai atender os empresários? Vai atender a indústria local, mas vai atender a comunidade como um todo.

A gente teve esse entendimento desde o início. E a iniciativa privada e a economia têm condições de nos ajudar, sim, e eu não vou negar nunca esse pedido de ajuda. Resultado disso é a parceria que nós fizemos com a Fecomércio e com o Sesc para a utilização desse espaço do prédio dos Correios, que fica na entrada do centro da cidade, aqui do Calçadão, que é um prédio, está se deteriorando, e que hoje o Sesc já assumiu e vai construir uma escola de educação infantil, e vai nos ajudar a recuperar o centro da cidade. Esse outro que eu te falei do Senai, da escola do Senai, que a gente está fazendo com a Fiergs, vai responder à necessidade pública e vai responder à necessidade de formação de mão de obra, vai responder à necessidade dos comerciários, das comerciárias em especial, que não têm onde deixar seus filhos para trabalhar.

Quais são as metas para o segundo ano de mandato?
A gente precisa concluir essas obras. Nós colocamos na rua mais de 30 licitações no ano de 25. A gente tem muita coisa para fazer, mas as minhas duas prioridades são a educação e a saúde. A menina dos meus olhos é assistência, é área social, mas eu sei que, para fazer isso, eu preciso de dinheiro. E, para ter dinheiro, eu preciso gerar riqueza na cidade. E que bom que a gente vai começar a 26, na educação, podendo entregar para as crianças no primeiro dia de aula o uniforme, o material escolar, que foi uma dor muito grande, eu não consegui ter feito isso porque eu cheguei sem material. Nós já nos programamos, esse material já foi comprado e a gente está aguardando, e a ideia é poder fazer essa entrega, melhorando as condições dos nossos estudantes, concluir as obras da saúde, a policlínica, poder concluir a policlínica, concluir o CAPS e trabalhar melhor a saúde mental. Nós teremos possibilidades de ampliar, a minha meta é baixar o índice de pessoal para que eu possa contratar novas equipes de trabalho, como os agentes comunitários de saúde, a questão da equipe técnica, médico, enfermeiro, técnico de enfermagem, para qualificar a atenção básica. Se a gente conseguir fazer isso, a gente vai ter uma melhoria na qualidade de vida das pessoas.

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