Nova queda de árvore expõe falhas na arborização urbana de Pelotas

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Nova queda de árvore expõe falhas na arborização urbana de Pelotas

Secretaria de Qualidade Ambiental diz que não havia vistorias regulares há dez anos; prefeitura responde por danos causados em vias públicas

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Nova queda de árvore expõe falhas na arborização urbana de Pelotas
Pelotas iniciou recentemente um estudo para analisar a estrutura das árvores de parques e avenidas (Foto: Jô Folha)

A queda de uma árvore na avenida Bento Gonçalves, no cruzamento com a rua Marechal Deodoro, que deixou um motociclista ferido e causou danos a um carro há uma semana, trouxe novamente à tona um problema histórico em Pelotas: as fragilidades na gestão da arborização urbana. O episódio reacende questionamentos sobre o plantio de espécies inadequadas e sobre a responsabilidade do poder público em casos de acidentes.

O tombamento em questão atingiu um motociclista e um Gol branco que seguiam no sentido da rodoviária. O condutor da moto sofreu escoriações leves e fraturou um dedo, enquanto o motorista do carro teve apenas danos materiais. Desde então, imagens do local mostraram que a árvore apresentava a base comprometida, com estrutura interna oca e apodrecida, mais fragilizada após dias de chuva intensa e ventos fortes do ciclone extratropical.

Segundo o secretário de Qualidade Ambiental de Pelotas, Marcio Souza, o município iniciou recentemente um levantamento da situação das árvores. “Estamos fazendo um mapeamento agora, avenida por avenida, parque por parque”, afirma. Ele explica que o objetivo é identificar árvores que necessitam de poda, supressão e também diferenciar espécies nativas e exóticas.

Souza também declara que, durante pelo menos uma década, não houve vistoria sistemática na arborização de Pelotas. “Nos últimos dez anos anteriores a este governo, a notícia que temos é que nunca foi feito a tal vistoria”, diz, considerando limitações de pessoal e recursos.

Plano Diretor Arbóreo

Para enfrentar o problema, a prefeitura pretende elaborar um Plano Diretor Arbóreo, em parceria com a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com investimento de R$ 800 mil nos anos de 2026 e 2027. O plano deverá definir quais espécies podem ser plantadas em cada bairro e rua, além de orientar a população.

Segundo o secretário, desde janeiro de 2025 a gestão não autoriza mais o plantio de espécies consideradas inadequadas ao ambiente urbano, embora admita que não há controle total sobre plantios feitos individualmente por moradores.

Falta de equipamentos

A identificação de árvores ocas ou com apodrecimento interno também enfrenta limitações técnicas. O secretário explica que o município não dispõe de equipamentos como tomógrafo ou ultrassom vegetal. “Hoje o processo é o mais rústico”, relata. “É pegar um material duro, uma pedra ou algo assim, e bater no tronco do vegetal, verificando qual é a resposta de som”. A compra de um ultrassom está prevista para 2026.

De quem é responsabilidade?

Do ponto de vista legal, o Ministério Público confirma que a responsabilidade pela arborização em vias públicas é do município. O promotor de Justiça Adriano Zibetti explica que cabe ao poder público o dever de manutenção e conservação, inclusive preventiva, para evitar riscos à população.

Segundo ele, o município é obrigado a indenizar vítimas, salvo em situações de culpa exclusiva da vítima ou em casos de força maior. Zibetti ressalva que não analisou especificamente o caso da avenida Bento Gonçalves.

Critérios para arborização

Já o biólogo e mestre em Biologia Vegetal Péricles Godinho destaca que a escolha das espécies é central para evitar acidentes. Ele explica que tanto a origem da espécie quanto o porte adulto devem ser considerados, assim como o local de plantio e a infraestrutura urbana ao redor. Árvores ocas ou apodrecidas, segundo o especialista, indicam enfraquecimento estrutural e aumentam o risco de tombamento. “Se os critérios básicos tivessem sido considerados, acidentes poderiam ter sido evitados”, afirma.

Para Godinho, um plano eficiente de arborização urbana, integrado ao planejamento da cidade, resulta em espaços mais organizados, seguros e ambientalmente qualificados.

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