Dia de conselho de classe, na quinta-feira quase todas as salas de aula da Escola Estadual de Ensino Médio do Areal estavam vazias. Apenas uma permanecia ocupada — nela, um grupo de alunos preenchia o silêncio do prédio com melodias que iam do pop e rock ao nativista gaúcho, tocadas com violinos, violoncelos, flautas, bateria, teclados, entre outros instrumentos. Era o ensaio da Orquestra Estudantil do Areal. Criado em 2014, o projeto já formou quatro gerações de músicos na escola pública.
Tudo começou com uma oportunidade, quando o governo do Estado equipou 51 escolas gaúchas com kits de instrumentos para a formação de orquestras estudantis. Depois disso, sem nenhum tipo de apoio para a manutenção dos equipamentos, nem incentivo financeiro para a continuidade dos projetos, a escola do Areal foi uma das únicas a estabelecer uma orquestra, apesar dos desafios.
Graças à dedicação da professora de música e coordenadora do projeto, Lys Ferreira, cerca de 300 jovens já passaram pela orquestra estudantil — alguns tornaram-se multi-instrumentistas e músicos profissionais, mas todos se tornaram cidadãos mais conscientes, impulsionados pelo desenvolvimento social. Os estudantes podem participar da formação a partir do 6º ano, e muitos continuam até a conclusão do Ensino Médio. Com isso, aprendem um pouco dos mais de sete instrumentos, além daquele em que se especializam.
A transformação social
Mas antes mesmo de aprenderem de fato a ler uma partitura e executar um instrumento, a mudança mais significativa é percebida por pais e professores no comportamento dos alunos. “Muda radicalmente a relação deles com a escola. Eles percebem a responsabilidade que têm com a construção do próprio estudo, e as professoras voltam para mim e dizem que são outro aluno. Começou o ano, era uma pessoa; no meio do ano, já é outra”, relata Lys.
Conforme a professora, além de estimular o desenvolvimento cognitivo, a educação musical também contribui para a formação cidadã e o fortalecimento social dos alunos. “Só por aí já mudaria radicalmente a vida de qualquer estudante. Mas tem esse lado social, a responsabilidade com o material da escola, o cuidado com as provas, com a frequência, com o respeito ao professor.”
Lys complementa ainda sobre a importância do papel da escola como um espaço para ofertar acesso à cultura a jovens e crianças que, de outra forma, não teriam essa oportunidade. “Essa consciência [social] começa a ser despertada quando eles estão num ambiente prazeroso, fazendo uma atividade em que se sentem bem. A escola, muito mais do que ter as suas disciplinas, tem esse papel também: transformar a vida desses jovens com atividades lúdicas, criativas, mas principalmente de cultura.”
Formação que retorna

Desde 2014, mais de 300 estudantes já integraram o grupo (Foto: Jô Folha)
Ao falar sobre o processo de formar alunos em diferentes instrumentos, Lys explica que sua especialidade é o violino, embora tenha conhecimentos gerais sobre todos. Mesmo assim, o aprendizado é impulsionado com o apoio de ex-alunos da orquestra — hoje, em grande parte graduandos em Música na UFPel — que retornam para colaborar com o projeto.
“Eu tenho muita ajuda deles. Eles vêm da universidade com mais informações e ajudam a formar os outros. Os alunos avançados também trabalham como multiplicadores, acabam formando grupos de estudo”, relata. Já o repertório é diversificado entre seleções eruditas, clássicas e populares. “Algumas coisas a gente traz de referência e outras eu absorvo deles. Os arranjos são coletivos: eu trago um arranjo básico, monto, e eles desenvolvem.”
Inspiração para a ampliação de orquestras
O fato de adolescentes e jovens de uma escola pública receberem formação orquestral — algo que normalmente exige anos de prática, instrumentos caros e orientação especializada de difícil acesso — desperta grande atenção. Com isso, a agenda da Orquestra Estudantil do Areal sempre tem algum compromisso marcado, seja para apresentações em eventos ou para auxiliar na construção de novos grupos. Enquanto a reportagem esteve na escola, por exemplo, chegou uma pessoa com o pedido de uma apresentação em uma igreja da região do bairro.
Além disso, a expertise em formar músicos, apesar dos poucos recursos, inspira outras instituições. A partir da iniciativa do Areal, foram criadas a Orquestra Estudantil Municipal de Pelotas, a Orquestra Jovem do Sesc e outras orquestras em três municípios da região (Pedro Osório, Arroio Grande e Jaguarão). “Eles viveram e construíram sua orquestra, então sabem o passo a passo, não precisam nem ensinar nada”, diz Lys sobre os alunos e ex-alunos que ajudam na formação de novos grupos.
Resistência apesar dos desafios contínuos

Na falta de espaço próprio, ensaios já ocorreram até no pátio da escola (Foto: Jô Folha)
Em dias atípicos como a quinta-feira de conselho de classe, o grupo aproveita para fazer um ensaio intensivo, normalmente das 8h às 20h. Isso porque a orquestra não dispõe de uma sala própria. Sem um espaço fixo para os ensaios, os alunos quase não se encontraram ao longo do ano e só conseguiram retomar uma rotina de encontros a partir de outubro.
“Quem estuda de tarde vem de manhã, quem estuda de manhã vem de tarde. Se eles têm uma folga, um conselho de classe, uma reunião, eles vêm para a sala de música”, diz Lys. Quando não há espaço para os ensaios, os alunos se encontram nas casas uns dos outros para as práticas. Graças à responsabilidade e ao cuidado dos integrantes da orquestra, eles podem levar os instrumentos para casa.
Por isso, mesmo nas várias vezes em que a escola foi arrombada e furtada — incluindo o episódio mais recente, no domingo — nada da orquestra foi levado. “Por sorte, quando acontece alguma coisa, os instrumentos estão com os alunos. Eles levam para suas casas, para estudar e se preparar.” Mas os furtos afetam os estudantes de outras formas, muitas vezes pela falta de merenda e de energia elétrica. “No tempo que eles estão dedicados aqui, não tem alimentação para dar, não tem um lanche porque roubam a merenda da escola.”
A falta de infraestrutura é outro fator de superação constante. Com mais de 14 anos, os instrumentos precisam de manutenção frequente, como reposição de cordas — algo caro e muitas vezes inviabilizado. Além disso, o aumento no número de equipamentos só foi possível devido ao reconhecimento da orquestra e, a partir disso, às doações da comunidade.
“É um desafio imenso. São vários governos que passam e não existe rubrica para o Estado; não existe uma estrutura de continuidade desse projeto que foi criado lá em 2014. Acaba que a gente recorre a editais de projetos sociais, recorre à comunidade, a doações”, conta a professora.
A continuidade do projeto também é garantida pelo apoio de quem conhece o trabalho da orquestra e pelo incentivo da escola e dos familiares. “É uma escola que está em uma comunidade carente, e ter acesso ao ensino e aprender a tocar um instrumento caro como esse não é uma coisa básica. Isso jamais seria estimulado; [o aluno] não teria nem sabido da existência se não tivesse um projeto como esse”, ressalta Lys.
Os impactados pela música
Esse reconhecimento também aparece no relato de uma das mães que acompanhavam o ensaio do filho na quinta-feira. Cristiane Brim, mãe de Deryon Brim, conta que decidiu inscrevê-lo na orquestra por recomendação do neurologista, que sugeriu a prática musical como forma de estimular atividades cognitivas e ajudar no controle dos sintomas do TDAH. Pouco tempo depois, ela relata que o filho mudou radicalmente.
“Ele ia muito mal na sala de aula, não tinha foco, não prestava muita atenção nas coisas. Ele se apaixonou [pela orquestra] e, desde aí, as notas dele mudaram, o foco dele em sala de aula foi maravilhoso, não se atrasa mais…”
Violinista, Cauã Mendes, 13 anos, está na orquestra há quase três anos. A vontade de integrar o grupo surgiu dentro de casa: o irmão também tocava violino na orquestra, e assim ele se encantou pelo instrumento. Assim como a mãe do colega, o estudante diz ter havido uma revolução na sua vida desde então.
“Mudou um monte de coisa. Eu comecei a prestar mais atenção, consigo me lembrar mais das coisas.” Para o jovem músico, a melhor parte da orquestra é se apresentar para o público. “Há pouco tempo a gente foi lá para Porto Alegre e foi muito divertido.” Faltando ainda alguns bons anos para concluir os estudos, Cauã tem certeza de uma coisa: quer fazer faculdade de música.
Para prestigiar a Orquestra Estudantil do Areal
Interessados em conhecer o projeto e desfrutar de uma ótima apresentação musical podem acompanhar o grupo no dia 23, às 19h, na Catedral São Francisco de Paula, em apresentação conjunta com a Orquestra Municipal.
