Quando o final do ano chega, junto com as festas, também vem o peso das contas, das metas não cumpridas e das emoções acumuladas. O resultado são filas nos caixas de supermercados, busca pelo presente perfeito, encomendas e entregas gerando o caos no trânsito, menos tolerância e mais pressa de chegar, quem sabe, no ano que vem. A sensação de exaustão que acompanha o encerramento do calendário não é incomum. E quem agora está lendo esta matéria deve estar se encaixando em alguma situação.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos por ano em razão de ansiedade e depressão, gerando prejuízo global superior a um US$ 1 trilhão. Independentemente da região do Brasil, o acúmulo de tarefas, a pressão por produtividade e o peso emocional da data compõem um cenário que intensifica o desgaste mental. Quem sabe lidar com o “estresse de final de ano”, já está em vantagem.
Para alguns, essa época representa renovação; para outros, o limite do cansaço. Entre esses brasileiros estão o motorista de transporte coletivo Paulo André Machado Rodrigues, 53, que tenta equilibrar trabalho, obrigações e frustrações financeiras, e Renata Martins Moraes, 43, que enfrenta a ansiedade agravada pela doença da filha e pela lembrança da mãe, falecida próximo ao Natal. Histórias como as deles revelam o impacto silencioso, e crescente, do estresse de fim de ano na saúde emocional.
“O esgotamento emocional é muito comum nesta época. Sobrecarga de trabalho, estresse financeiro e demandas pessoais podem aumentar a ansiedade ou a tristeza. Reconhecer o cansaço não é sinal de fraqueza; é o primeiro passo para o autocuidado”, apontam psicólogos.
O peso das expectativas
Para o motorista Rodrigues, a chegada de dezembro é uma prova de resistência. “A gente se cobra porque não tem dinheiro para presentear ou para fazer uma ceia. Cada dia é uma batalha. Temos que nos adaptar”, diz. Ele relata que tenta lidar com a pressão tratando as pessoas “como gostaria de ser tratado” e evitando comparações com vizinhos ou conhecidos. “Cada coisa no seu tempo. A gente tem que conviver com o que tem”, admite.
Já Renata, moradora de Pelotas, é enfática: “O estresse é o ano inteiro. Tem a sobrecarga financeira e a saudades da minha mãe que se foi há dois anos, bem no Natal.” Este ano, porém, o medo tomou forma nova: sua filha, Ana Carolina, 28, descobriu nódulos no pescoço e aguarda biópsia. “Está muito demorado pelo SUS então organizamos vaquinhas e dividimos com familiares as contribuições. É que estamos apavorados”, desabafa. Ela tenta evitar que o sofrimento se torne depressão, mantendo a rotina perto dos netos e buscando apoio familiar. Sua resiliência impressiona e, quando criou coragem, pediu para divulgar um número de telefone para quem quiser ajudar a família com o exame da filha: (53) 99106-7379.
Calendário vira pressão
O professor de Psicologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Mateus Luz Levandowski explica que o fim do ano funciona como “um prazo simbólico” para avaliar o que foi feito, e o que não foi. “É uma colisão entre dois tempos: Cronos, o tempo do relógio, das metas e prazos; e Kairós, o tempo oportuno, do descanso e da celebração. O estresse surge quando tentamos forçar o Kairós dentro dos limites implacáveis do Cronos”, afirma.
As festas também amplificam desigualdades. Em uma sociedade marcada pelo consumo, a incapacidade de atender às expectativas, seja comprar presentes, organizar festas ou viajar, pode provocar sofrimento real. “Quando não se alcança o padrão social de consumo, há risco de quadros depressivos e até comportamentos impulsivos, como compras compulsivas ou endividamento”, alerta a psicóloga Roberta Barbosa, que também observa o impacto da comparação constante nas redes sociais.
Os gatilhos
Para quem vive perdas recentes, brigas familiares ou solidão, a narrativa da confraternização universal pode funcionar como gatilho. “A migração de pessoas para visitar familiares, os encontros, as postagens felizes… tudo isso pode amplificar a dor”, explica Levandowski. Ele destaca ainda que muitas pessoas sentem que “não pertencem” ao ambiente festivo, o que aumenta a vulnerabilidade emocional.
Quem sofre mais
Alguns grupos são especialmente impactados:
- Pessoas entre 35 e 50 anos, que acumulam responsabilidades profissionais, contas, filhos e cuidado de pais idosos.
- Trabalhadores informais, cujo orçamento apertado torna dezembro um mês de pressão financeira e sensação de fracasso.
- Idosos ou pessoas em luto, expostos a lembranças dolorosas e à solidão.
- Mulheres, frequentemente sobrecarregadas pela organização das festas e demandas familiares.
Além disso, o estresse prolongado pode agravar ansiedade, depressão e hipertensão, e aumentar comportamentos de risco, como abuso de álcool, direção perigosa ou autolesão.
Sinais de alerta
Endividamento crescente, irritabilidade constante, exaustão física, insônia e isolamento são sinais de que o estresse ultrapassou o limite saudável. “A falta de controle pode levar a situações extremas, inclusive tentativas de suicídio ou comportamentos de risco”, adverte Roberta. Ela resume: “Assim como a vida, o ano é um ciclo. Que, além do cansaço, possa prevalecer a esperança no que virá”.
Atitudes
Segundo os especialistas, algumas atitudes podem aliviar o peso emocional antes que ele se transforme em sofrimento maior:
- Baixar a régua das expectativas: dezembro não exige felicidade obrigatória.
- Praticar um “detox digital” para reduzir comparações e sobrecarga sensorial.
- Redefinir a forma de celebrar: encontros menores, escolhas simples, tempo de descanso.
- Valorizar vínculos positivos e buscar espaços de acolhimento.
- Contato com a natureza, que ajuda no reequilíbrio emocional.
- Diálogo familiar, especialmente para questões financeiras.
- Reconhecer o próprio limite, inclusive para não participar de festividades quando isso causa sofrimento.
