Referência mundial em saúde materno-infantil, o professor e pesquisador César Victora dedicou quase cinco décadas à ciência feita em Pelotas. Reconhecido entre os pesquisadores mais influentes do planeta, ele conversou sobre sua trajetória, os avanços das coortes de nascimentos e a importância do aleitamento materno, um gesto simples que pode ser capaz de transformar gerações.
Como começou a sua relação com Pelotas?
Sou pelotense adotivo há 49 anos. Vim para cá quando a Faculdade de Medicina foi federalizada, logo depois de me formar em Porto Alegre, na UFRGS. Construí minha carreira aqui, gosto muito da cidade e não troco Pelotas por nenhuma outra onde já morei.
O senhor foi incluído em uma lista dos pesquisadores mais influentes do mundo. O que esse reconhecimento representa?
É um reconhecimento importante, porque mostra que a pesquisa feita aqui em Pelotas tem impacto internacional e influencia políticas públicas. Fico feliz também por ver outros colegas da UFPel sendo lembrados. Isso é fruto de um trabalho coletivo e de muitos anos dedicados à ciência.
Um dos estudos mais conhecidos que o senhor coordena é a Coorte de Nascimentos de Pelotas. Como ela começou?
A coorte foi iniciada em 1982 pelo meu colega Fernando Barros, e desde então acompanha milhares de pessoas desde o nascimento. Hoje, os dados desse estudo servem de referência em mais de 140 países e influenciam políticas de saúde, especialmente nas áreas de nutrição e amamentação.
Por que a amamentação é um tema tão central nas suas pesquisas?
Porque ela salva vidas. O leite materno é o alimento mais completo que existe, e o aleitamento exclusivo até os seis meses traz benefícios para toda a vida. Mesmo uma mãe pobre, com uma dieta que não é o ideal, consegue produzir um leite de altíssima qualidade. É um gesto simples, mas de um poder imenso.
O que mais mudou ao longo desses 40 anos acompanhando as coortes?
Mudou o perfil das doenças e a forma como a sociedade enxerga a ciência. Conseguimos reduzir a mortalidade infantil, mas surgiram novos desafios, como a obesidade e as fake news que afetam a saúde pública.
Há planos para novos estudos?
Sim. Além das coortes de 1982, 1993, 2004 e 2015, já estamos preparando uma nova, que começa em 1º de janeiro de 2026. É uma forma de continuar acompanhando gerações e manter viva essa história da ciência feita em Pelotas.
O senhor também recebeu o prêmio da Royal Society, o mesmo concedido a Newton, Darwin e Einstein. O que esse momento significou?
Foi muito emocionante. É uma honra ver o nome do Brasil e de Pelotas sendo reconhecidos entre os grandes da ciência mundial. Isso mostra o quanto é importante investir em pesquisa e acreditar no potencial da ciência feita aqui.
