Em Pelotas, algo surpreendente aconteceu: os vereadores deixaram o debate acirrado de lado e conversaram sobre um tema que há semanas vinha aflorando os ânimos e resultou até em injúria racial. Diante do diálogo, chegaram a um acordo dentro da discussão sobre os recursos para a causa animal. É espantoso, não é mesmo? Quem diria que quando há civilidade e os temas são encarados de frente, com seriedade e sem populismo de rede social, as coisas avançam. Ironias à parte, isso é, acima de tudo, um grande recado do poder da diplomacia no trato das questões públicas.
Estamos em um momento global fascinante no Brasil, em que acompanhamos de perto todas as discussões da COP30, em Belém, e o trabalho incansável dos negociadores que discutem os termos para tentar chegar a acordos que visam frear os impactos das mudanças climáticas no mundo. São duas semanas em que, basicamente, as pessoas conversam, conversam, conversam e conversam até tentar chegar a um denominador comum. Pode ser que cheguem, pode ser que não se avance tanto. Mas as coisas são feitas assim.
Estamos há mais de uma década em uma espiral crescente de um populismo de internet em que o nós contra eles tornou-se o grande norteador de todas as discussões e os debates são acalorados sobre basicamente tudo. Dentro desse cenário, os extremos se sobressaem e vemos uma sociedade que se divide em quase tudo. De quebra, colhemos prejuízo coletivo, como no negacionismo climático e das vacinas, na falta de entendimento básico sobre temas pertinentes e na dificuldade de avanço em qualquer pauta. Para muitos, mais vale um discurso que prega divisão em um tom inflamado e que engaja em um reel ou em um story do que uma conversa que gera resultados.
Esse cenário reforça a necessidade da serenidade, da diplomacia e do respeito no próprio trato humano. Deve partir também – e talvez principalmente – dos políticos a mudança de tom. Muitos sequer são assim em sua essência, mas veem na necessidade do engajamento uma tentativa de sobreviver. Mudar essa lógica não é fácil, mas temos exemplos claros de que o diálogo é a arma para solução de conflitos e avaço em temas fundamentais. O ataque raramente nos leva a algum resultado realmente útil.
