A população de Pelotas está envelhecendo a cada ano. Dados do Censo 2010 e 2022 revelam um crescimento de 35,7% no número de moradores com 60 anos ou mais nos últimos 12 anos. Informações mais recentes da prefeitura elevam a expansão para 41,2%. Hoje, são 70,2 mil idosos, equivalente a 20,9% da população. O fenômeno acompanha a tendência nacional e ganhou destaque neste domingo, quando o Enem 2025 propôs a reflexão sobre o envelhecimento populacional.
Para Hartur Marcel, psicólogo e coordenador do Centro em Extensão à Terceira Idade (Cetres) da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), a escolha do tema foi adequada e ajudou a valorizar a pauta. “Observamos uma grande interação entre os idosos, eles se sentiram muito valorizados. É um propulsor para continuarmos com essas discussões tão relevantes”, afirma.
Envelhecimento em Pelotas
O envelhecimento em Pelotas aparece de forma expressiva nos números. Entre 2010 e 2022, houve queda na população geral (-0,8%) e forte aumento no total de idosos, resultando em 121,59 pessoas idosas para cada 100 crianças de até 14 anos. Ainda, entre 2022 e 2025, o município ganhou 2.770 novos idosos.
Para Francisco Kieling, coordenador do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e sociólogo do Departamento de Sociologia e Política do IFISP/UFPel, essa mudança se explica por transformações sociais acumuladas. Segundo ele, os núcleos familiares menores, a maior participação feminina no mercado de trabalho e os avanços em saúde têm impacto direto no perfil etário. “A participação no mercado de trabalho, o custo de vida e as possibilidades ampliadas de métodos contraceptivos induzem as famílias ao planejamento de famílias menores, com menos filhos”, explica.
Kieling destaca também particularidades locais que aceleram o processo. A baixa dinâmica econômica estimula jovens e adultos a deixarem a cidade em busca de melhores oportunidades. Já estudantes que chegam para o ensino superior, muitas vezes, não permanecem. “Isso reforça a proporção de idosos e exige adaptação de serviços e infraestrutura”, diz. Ele cita deficiências históricas, como falta de calçadas, arborização e espaços de lazer, e defende que o planejamento urbano una as agendas de envelhecimento e mudanças climáticas. “Quanto melhor for a cidade para os idosos, melhor será para todos”, declara.
Realidade nas ruas
A percepção nas ruas confirma os desafios. O casal de idosos Ana Cândida Arnani e João Luís Oliveira avalia que Pelotas oferece pouca consideração com os mais velhos. “Não tem atenção nenhuma, principalmente de governo”, diz ele. Ana concorda: “O idoso não tem vez nenhuma em Pelotas”. Eles apontam problemas básicos, como ruas esburacadas e falta de acolhimento no dia a dia.
O presidente do Conselho Municipal do Idoso de Pelotas, Willi Wetzel Júnior, reforça o diagnóstico. Para ele, é preciso ampliar o preparo do SUS, garantir calçadas e espaços públicos adequados e adotar um olhar intergeracional. Destaca, ainda, a importância de reconhecer as múltiplas velhices, sobretudo o envelhecimento feminino. Também defende o conceito de “envelhecimento digno”, no qual renda e serviços sejam suficientes para sustentar cuidados até o fim da vida.
Ele considera essencial fortalecer o Fundo Municipal da Pessoa Idosa, capaz de captar recursos e atender demandas prioritárias. Segundo o presidente, a meta central é consolidar o Programa Cidade Amiga da Pessoa Idosa, articulando planejamento urbano, saúde, cultura e serviços públicos para melhorar a vida da população mais velha.
