A história da aposentada Rosa Maria Bilhalva Lima, 65 anos, simboliza um grande avanço para a medicina no Sul do país. Paciente do ambulatório de Dermatologia da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), ela se tornou a primeira usuária do Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil a receber uma injeção imunobiológica de última geração para o tratamento da psoríase. A conquista, resultado direto da atuação conjunta entre ensino, pesquisa e assistência, representa uma mudança de paradigma para pacientes que convivem há anos com os impactos físicos e emocionais da doença.
Rosa foi diagnosticada com psoríase há mais de duas décadas. Passou por diversos tratamentos, pomadas, medicamentos orais e terapias convencionais, mas nenhum deles conseguiu controlar as lesões que se espalhavam pelos braços e pernas. “Chegou um momento em que nada mais fazia efeito. Eu já não acreditava que fosse melhorar”, conta. A nova injeção, obtida pela equipe médica em caráter especial, transformou o curso da doença. “É como ver um filho crescer”, define a dermatologista e professora da UCPel Joice Göebel, coordenadora do ambulatório. “Foi um processo de muita dedicação. Ver o resultado em uma paciente como a Rosa é motivo de orgulho para toda a equipe e um avanço real para o SUS.”
O que é a doença?

(Foto: Divulgação)
A psoríase é uma doença inflamatória crônica e autoimune, que afeta principalmente a pele, mas pode atingir também as articulações e outros órgãos. As lesões avermelhadas e descamativas, que costumam surgir nos cotovelos, joelhos, couro cabeludo e tronco, resultam de uma resposta exagerada do sistema imunológico. “A psoríase não é apenas uma condição estética. É uma inflamação sistêmica que aumenta o risco de doenças cardiovasculares, infarto, diabetes, obesidade, ansiedade e depressão”, explica Goebel. “Por isso, tratá-la corretamente é cuidar da saúde integral do paciente.”
Embora tenha predisposição genética, a psoríase pode se manifestar em qualquer fase da vida, inclusive em crianças e idosos. “O indivíduo nasce com uma tendência, mas ela pode ficar adormecida por anos. Em algum momento, um gatilho, como estresse emocional, infecção, uso de certos medicamentos ou até mudanças climáticas, pode ativar a doença”, detalha a dermatologista. No Sul, a incidência costuma ser maior em razão dos invernos rigorosos e da menor exposição solar, já que o sol, em doses controladas, tem efeito anti-inflamatório.
O tratamento evoluiu muito nas últimas décadas. Até o início dos anos 2000, as principais opções eram pomadas, fototerapia e comprimidos como metotrexato e acitretina. “Esses medicamentos ainda são eficazes em casos leves ou moderados, mas nem sempre controlam as formas mais graves”, explica Goebel. A revolução veio com os imunobiológicos, terapias injetáveis desenvolvidas por engenharia genética que bloqueiam moléculas específicas envolvidas no processo inflamatório, entre elas, as interleucinas 17 e 23, consideradas centrais na ativação da doença. “Com esses fármacos, conseguimos interromper a inflamação de forma muito mais precisa e segura. O paciente volta a ter uma vida normal”, afirma.
Acesso pelo SUS

Novas ações vêm sendo estudadas (Foto: Cíntia Piegas)
Os imunobiológicos têm custo elevado, mas são disponibilizados gratuitamente pelo SUS a partir de protocolos clínicos estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Para isso, o dermatologista precisa comprovar que o paciente não obteve resposta adequada com os tratamentos convencionais e preencher laudos de gravidade e impacto na qualidade de vida. “O acesso é criterioso, mas existe, e a nossa função é garantir que o paciente que precisa tenha esse direito assegurado”, ressalta também o dermatologista que atua no ambulatório, Hiram Larangeira.
No caso de Rosa, a equipe da UCPel conseguiu, de forma inédita, autorização para uso de uma medicação ainda não incorporada oficialmente ao protocolo do SUS. “Ela é a primeira paciente a receber essa injeção específica no Brasil dentro da rede pública. O resultado foi surpreendente: controle total da doença e retomada da autoestima”, comemora Goebel.
Melhor qualidade de vida
Outro exemplo de transformação é o de Daniel Menezes Santana, 35 anos, operador de máquina no Porto de Pelotas. Após anos tentando se tratar por conta própria, ele chegou ao ambulatório desacreditado. “Comprei vários produtos na internet, usei pomadas, nada ajudava. As pessoas olhavam para mim com medo, achando que era contagioso”, recorda.
Desde que iniciou o tratamento com acompanhamento especializado, as lesões desapareceram em 95%. “Hoje eu visto bermuda, vou à praia, faço exercícios. Antes eu tinha vergonha até de sair de casa.” Ele também perdeu 25 quilos e reduziu fatores de risco que pioravam a doença, como o álcool e o cigarro. “Recuperei minha vida”, resume.
A dermatologista destaca que a psoríase não é contagiosa, mas ainda é cercada de preconceitos. “Muitos pacientes se isolam por causa do olhar das outras pessoas. É fundamental reforçar que não se transmite por contato e que o apoio familiar e social faz parte do tratamento”, afirma. O estigma social, segundo ela, contribui para quadros de depressão e para a piora da doença. “Informar é tratar. A informação liberta o paciente e educa a sociedade.”
Além do acolhimento, o ambulatório da UCPel atua na formação de novos médicos, que acompanham consultas e participam da atualização científica sobre doenças inflamatórias. “Ter um serviço universitário de referência garante que o conhecimento se multiplique e chegue à rede pública de saúde com qualidade”, observa a Dra. Joice.
