“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, diz um provérbio africano. E é preciso uma comunidade inteira para maltratar uma criança. Para estuprar. Matar. Abusar. Humilhar. Agredir. Há, claro, o indivíduo que comete o crime diretamente. Mas quantos outros fizeram vista grossa, não olharam os sinais, não quiseram “meter o bedelho” na educação do filho do outro, também nutrem responsabilidade indireta. Raramente um abuso, de qualquer natureza, passa sem ao menos um indicador. Cabe, portanto, no menor dos sinais acender todos os alertas e acionar os responsáveis.
Os números da reportagem de Victoria Fonseca sobre os três anos do Centro de Referência ao Atendimento Infantojuvenil (Crai) são assustadores. Se, por um lado, há muitos atendimentos, um indicador da qualidade da atuação dos profissionais, fica a preocupação de quantos outros casos não aparecem. Causa angústia, preocupação, mas também reforça a responsabilidade de estar em alerta para oferecer este suporte urgente.
Pelotas tem a dádiva de ter um serviço de acolhimento a crianças e jovens vítimas de violência. Seu trabalho precisa ser amplificado, ser comunicado e, acima de tudo, ser expandido também para outras cidades. Criança não pode ser tratada como cidadão de segunda classe, como vemos constantemente. Violência não educa. Trabalho não enobrece quando se deveria estar brincando ou estudando, e apenas isso. Há que superar a lei do silêncio em quase todos os assuntos que envolvem abusos, os mais variados, contra crianças e adolescentes.
O país pode empilhar uma lista enorme de casos de violências contra crianças e adolescentes que repercutiram, e uma lista infinitamente ainda maior de casos que passaram despercebidos, ou ao menos sem tanta cobertura midiática. Para avançarmos como sociedade, precisamos começar pela base. Dando formação, amor, carinho e possibilidades para as crianças. Enquanto ainda houver quem tenha atitudes monstruosas contra os pequenos e quem silencie diante disso, é muito difícil ter fé no ser humano.