Visitar a 31ª Fenadoce e resistir às tentações dos 34 estandes da Cidade do Doce é um desafio, até para quem convive com o diabetes. No entanto, com planejamento, informação e moderação, é possível sim saborear algumas das iguarias mais tradicionais da culinária pelotense sem culpa. Entre os mitos e verdades sobre os riscos de um “docinho só”, o Corpo e Mente traz dicas e depoimentos para quem deseja curtir a festa com equilíbrio.
A endocrinologista Maria Alice Dode, professora do curso de Medicina da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), reforça que o segredo está no controle. “A pessoa com diabetes que mais vive é a que mais sabe. Ter conhecimento sobre a doença, suas complicações e como preveni-las permite uma vida mais saudável e com menos restrições sociais”.
Diet consumido com moderação
Nos estandes da Cidade do Doce, já é possível encontrar alternativas para quem tem restrição ao açúcar. “Hoje temos, por exemplo, o quindim diet. A procura é muito grande. As pessoas chegam perguntando se podem consumir algum produto, e os doces sem açúcar têm cada vez mais saída”, relata William Betanzos, da doçaria Anete Ruas.
Mas nem tudo que é “diet” está liberado. “Diet não significa que pode comer à vontade. Esses produtos podem conter muita gordura e calorias. Além disso, há ingredientes que também elevam a glicose. Por isso, mesmo sendo diet, o consumo deve ser controlado”, explica a médica.
Estratégia é tudo
A médica orienta que o ideal é planejar o dia da visita. Comer algo saudável antes de sair de casa, priorizar pequenas porções e evitar exageros são medidas que ajudam a manter a glicose sob controle. “Se possível, escolha doces com frutas frescas ou adoçantes culinários como sucralose, estévia ou eritritol. Caminhar durante o evento também ajuda muito”, recomenda.
Outro ponto importante é levar o glicosímetro (se já faz uso), manter-se hidratado e fazer substituições conscientes: se for comer um doce, evite um lanche com muitos carboidratos refinados, como pão branco ou refrigerantes.
Experiência real
Quem saiu de Caxias de Sul para visitar a Fenadoce sabe que abrir uma exceção faz parte da vida. “Hoje eu saí da dieta, mas trouxe o meu remédio. Depois eu compenso com a alimentação mais salgada. Não dá para vir à Fenadoce e não comer um doce”, comenta Berna Zardo, de 80 anos, enquanto escolhe seu doce preferido, a panelinha de coco. A jovem senhora confessa que está levando doces para toda a família.
Já Florência Soares Goulart, de 72 anos, mora em Joinville, mas é natural de Pelotas e faz questão de manter a tradição ao visitar a feira. “Não tenho diabetes, mas não como doces de jeito nenhum, só quando estou aqui. É uma exceção. Fora isso, não tem açúcar em casa. Controle total”, diz, ao lado do marido, Evandro Goulart, de 77 anos, que é natural de Santa Catarina.
Alimentação equilibrada
Alimentar-se bem é parte essencial do tratamento. Pessoas com diabetes podem e devem consumir carboidratos, mas preferencialmente os integrais, combinados com fibras, proteínas e gorduras boas. A dica vale para todos: evitar alimentos ultraprocessados, sucos concentrados e refrigerantes.
Frutas doces devem ser consumidas com moderação. “Sempre que possível, devem ser consumidas com casca e bagaço. O importante é fugir do suco puro e priorizar a fruta in natura”, destaca Maria Alice.
Vida social e diabetes
A médica Maria Alice Doce reforça que festas como a Fenadoce, aniversários ou datas comemorativas fazem parte da vida. O importante é manter o equilíbrio. “As pessoas com diabetes não precisam deixar de conviver socialmente. Devem ter uma rotina regrada, sim, mas podem sim se permitir momentos prazerosos, com responsabilidade.”
Com consciência, orientação e algumas adaptações, é possível sim aproveitar o melhor da doçaria pelotense, e de quebra, levar para casa o sabor da tradição, sem sair da linha.
Para todos os gostos, sabores e combinações
O amor de vó fez com que Maria Alzira Roda Carreira, já aposentada das Delícias Pelotenses, onde trabalhou por 40 anos ao lado da mãe Elvira nos doces tradicionais, se reinventasse. Com o neto diagnosticado com diabetes aos quatro anos, a mágoa de não poder satisfazer a vontade dele, hoje com 17, levou Maria Alzira de volta à sala de aula. Por meio de cursos, passou a produzir doces saudáveis, atendendo não só ao neto, mas também a muitas pessoas com restrições alimentares.
“Na Fenadoce do ano passado eu fiz essa experiência e coloquei em algumas doçarias, como na Delícias Portuguesas e na Santa Clara também. Meus doces zero açúcar, zero lactose e zero glúten são também veganos, porque não levam nenhum produto de origem animal”, conta.
A demanda foi tão grande que Maria Alzira precisou trabalhar muito mais para esta edição da feira. Entre os doces preparados por ela estão:
- Doce de Ameixa: ameixa com coco
- Doce de Amendoim: amendoim com uva-passa branca
- Doce de Café: café, figo seco e nozes
- Doce de Pistache: pistache e limão-siciliano
- Doce de Damasco: damasco e castanha de caju
- Doce de Nozes: nozes e uva-passa
- Doce de Tâmara: tâmara e castanha de caju
- Doce de Cacau: cacau e avelã
- Doce de Amêndoas: amêndoas com laranja
- Doce de Banana: banana com coco
