Professor no Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e reitor eleito para o mandato de 2021 a 2024, mas não nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Paulo Roberto Ferreira Júnior criou recentemente um grupo de pesquisa em Inteligência Artificial aplicada à Saúde de Precisão. Também atua na área de sistemas embarcados inteligentes.
Como você se interessou pela área da computação e da inteligência artificial?
Estudei no IFSul (antiga Escola Técnica), e a computação é a área em que decidi atuar desde aquela época… Programo computadores desde os 13 anos. Na graduação, já comecei a me interessar por IA — meu trabalho de conclusão de curso foi sobre agentes inteligentes, um tema que tem voltado à cena da IA recentemente. A partir daí, no mestrado, doutorado e pós-doutorado, segui trabalhando com agentes inteligentes, no planejamento de ações, na alocação de tarefas e na distribuição de trabalho. São quase 30 anos estudando Inteligência Artificial.
Precisamos, de fato, ter medo da inteligência artificial?
Não precisamos! IA são apenas programas de computador que executam tarefas que, em tese, são inerentes aos humanos. A questão é que esses programas acabam realizando essas tarefas melhor do que nós. Faz algum tempo que nenhum humano vence a IA em uma partida de xadrez. Isso não nos preocupava, certo? O que acontece é que os novos modelos de linguagem de grande escala (como o DeepSeek e o ChatGPT) impressionam porque se expressam falando ou escrevendo — e isso é considerado a essência humana, a base da nossa inteligência (o que nos diferenciaria até dos outros mamíferos). É isso que causa essa sensação estranha, quase um medo, na humanidade.
O quanto a inteligência artificial pode mudar o mundo nos próximos anos?
Ela já vem mudando o mundo há algum tempo, embora de forma mais silenciosa do que agora. Os carros estão fazendo muitas coisas de forma autônoma — alguns, inclusive, já dirigem sem motoristas humanos. Nessa linha, os humanos não têm “sensores” nem reflexos suficientemente bons para lidar com o movimento em alta velocidade; já os robôs com IA, sim. No futuro, não teremos mais acidentes de trânsito com carros totalmente autônomos. E nem estamos falando apenas dos modelos de linguagem, que são a grande sensação do momento. Eles nos ajudam muito nas tarefas do dia a dia. Hoje, eu faço o mesmo trabalho que fazia há um ano, mas em metade do tempo. Esses modelos de IA servem para estudarmos, discutirmos ideias, realizarmos tarefas repetitivas, entre muitas outras funções que facilitam a nossa vida e o nosso trabalho. Isso é uma nova revolução, como foram a eletricidade, a automação, a internet e a comunicação.
O que Pelotas e a UFPel estão produzindo em termos de inteligência artificial?
A IA tem sido uma ferramenta de investigação em muitas frentes na UFPel. Vários pesquisadores têm aplicado IA a problemas em suas áreas de atuação. Nossa universidade conta com um Hub de Inovação em IA (ia.ufpel.edu.br), que tem atendido tanto à indústria local quanto nacional no desenvolvimento de soluções com IA, além de oferecer formação na área para pesquisadores e profissionais do setor. Temos muitas pesquisas em andamento aqui na Computação da UFPel, com foco em aplicações na saúde de precisão, genômica computacional, educação, meio ambiente e sistemas inteligentes. A última novidade é que estamos estabelecendo uma aliança estratégica entre a UFPel e o Instituto Kunumi, com investimento privado em nossas pesquisas, que chega à ordem de meio milhão de reais. Tudo isso demonstra a relevância do nosso trabalho e o quanto estamos na vanguarda da área.