Nas redes sociais, a última semana foi marcada por uma nova moda: transformar fotos em ilustrações estilizadas com ajuda de inteligência artificial. A ideia é dar um toque criativo e artístico às imagens, com efeitos que lembram desenhos animados. Enquanto a internet explora a nova possibilidade, debates sobre direitos autorais e produção humana levantam questões sobre os impactos da IA no cotidiano.
Imagens inspiradas no estilo “Studio Ghibli”, estúdio de animação japonês, são as que mais apareceram, geradas por uma ferramenta do ChatGPT. Hayao Miyazaki, um dos criadores das animações originais, já criticou abertamente o uso da IA, classificando-a como um “insulto à vida”. A OpenAI, responsável pela tecnologia, nunca solicitou autorização para imitar o estilo visual do estúdio.
O professor do curso de design da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Tobias Mulling, explica que apesar do potencial criativo, existem dilemas éticos, e as IAs aprendem com obras existentes sem remunerar os autores. Por isso, ele defende o uso da IA como apoio, e não substituto, na criação artística.
Impacto para artistas
O tema também incita discussões sobre o mercado de trabalho para os ilustradores. Para a coordenadora de Design de Jogos da UFPel, Mônica de Faria, o uso da IA na criação de ilustrações tem um impacto negativo para os profissionais, e justifica: pessoas que precisam de desenhos para seus projetos podem preferir usar a tecnologia para evitar os custos de contratar um profissional qualificado. “O que pode parecer vantajoso a princípio, porém, acaba resultando na falta de diferenciação”, considera.
Por outro lado, Mulling acredita que, no curto prazo, o impacto não será tão grande, pois as ilustrações profissionais possuem detalhamentos específicos e são destinadas geralmente a empresas dispostas a pagar pela arte profissional. Por outro lado, o mercado mais informal pode estar fadado ao uso massivo de IA. “É um mercado que utiliza a IA para replicar tendências ou apresentar soluções rápidas as suas necessidades”, aponta o professor.
Profissão ameaçada?
A artista e ilustradora, Luiza Kohn, de 24 anos, por muito tempo evitou pensar na possibilidade de ter a profissão ameaçada pela tecnologia. Com a onda de postagens em estilo Ghibli, decidiu expor sua posição contrária à novidade. Ela critica o processo de desenvolvimento de imagens pela IA, que se apropria do trabalho de outros artistas-ilustradores para reproduzir um estilo.
Luiza também lamenta a falta de conscientização das pessoas sobre os significados de arte e ilustração, e afirma que uma das alternativas é falar sobre o assunto. “Essa nova e triste realidade tende a sucatear ainda mais a profissão de artistas-ilustradores, que já enfrentam muitas dificuldades para divulgar e precificar seu trabalho”, opina.
Valor da produção humana
Diante da polêmica, Mônica de Faria ainda acredita no potencial da produção humana e diz que os ilustradores não precisam desenvolver habilidades para competir com a IA. Mesmo assim, com o passar do tempo, ela prevê que empresas sem a intenção de se diferenciar deixem de contratar ilustradores. “A vantagem da criação humana já está ali: ela é única, carrega valor criativo e identidade — não é pura imitação”, defende a professora.