Mesmo sem o Sete de Abril, o Dia Mundial do Teatro e o Nacional do Circo, marcados hoje, o 27 de março não será esquecido em Pelotas. Na esplanada da praça Coronel Pedro Osório, em frente Theatro, representantes de diferentes grupos da cidade se unem num cortejo, a partir das 17h30min, para celebrar a resistência e a resiliência das artes cênicas no município e, ainda, reforçar a urgência da volta desse patrimônio nacional fechado há 15 anos. No retorno, por volta das 19h, haverá um sarau dramático.
A ideia do cortejo surgiu dos próprios artistas, atendendo um convite da Secretaria de Cultura (Secult) para que fosse realizado um evento nesta data. Além desta ação, até sábado ocorrerão outras atividades gratuitas, como um colóquio e aulão de teatro.
Na programação do cortejo estão a apresentação de fragmentos de O último Godot, de Matei Visniec, em algum momento, na chegada do cortejo no teatro. As atrizes Yaska Antunes e Ísis Peres fazem leitura de poema de Maiakovski. O ator e diretor Chico Meireles apresenta A peregrinação, já o grupo Você Sabe Quem fará uma leitura dramática, bem como a atriz Nina Grace, do Núcleo de Teatro da Universidade Federal de Pelotas.
Tempo de união
“A comunidade artistas de Pelotas se reuniu e ela decidiu por esse cortejo. A gente faz teatro porque se une e esse evento é para lembrar que existimos uns para os outros”, fala a professora Gizele Cequim, coordenadora do Núcleo de Teatro da Universidade Federal de Pelotas. Para a educadora, esse é um momento de alegria e festejo sim, especialmente porque todos estão empenhados em lembrar à comunidade o porquê se faz teatro. “Porque ele transforma a nossa vida e a de tantas pessoas”, reflete Gizele.
O ator e diretor Diego Carvalho, da Companhia Você Sabe Quem, enfatiza que os grupos continuam fazendo a arte na cidade e desejando estar no palco. A manifestação também será oportuna para mostrar o incômodo com a decisão do Congresso Nacional em cortar recursos do orçamento do Programa Nacional Aldir Blanc (PNAB), que foi decisivo para a retomada do setor cultural, após a pandemia. “Precisamos de investimentos para que nossa arte tenha mais voz e espaço”, diz.
Para o ator, este 15 anos sem o Sete de Abril, escancara o desrespeito à cultura, como parte essencial para formação do cidadão.
Diretor dos grupos Cem Caras de Teatro e Teatro Oficina, o ator Flávio Dornelles avalia como positiva a iniciativa da Secult ao chamar os grupos para conversar. “Isso é básico para qualquer Secretaria de Cultura, trabalhar com os artistas, saber as necessidades dos artistas”, fala. Para Dornelles, com o fechamento do Sete de Abril, em 2010, o poder público deveria ter chamado os artistas para discutir alternativas para as apresentações.
Impactos
Para estes artistas, a falta do teatro municipal impactou nas duas bases da construção do teatro, a formação de grupos e a de plateia. “Sabemos que houve políticas públicas que tentaram permear ações de apoio, nos como grupo teatral também buscamos chegar nas escolas e formar alunos espectadores, apreciadores da arte das cenas, mas sem espaços públicos fica uma lacuna. A cidade fica sem seu coração cultural quando o Theatro permanece fechado”, diz Diego Carvalho.
“Eu tive a chance de me apresentar no Theatro Sete de Abril, como a Companhia Extravaganza, de Porto Alegre”, relembra a professora Gizele. Porém, seus alunos não. “Temos na Universidade um curso de teatro Licenciatura, para os acadêmicos trabalharem nas escolas eles precisam de uma prática, compreender sobre o fazer teatral, sobre a que vieram. O Sete de Abril aberto é fundamental. Fechado é como se as nossas memórias estivessem apagadas, escondidas por trás dessas janelas, dessas portas. É toda uma formação de plateia e o reconhecimento da cultura da educação”, diz.
Flávio Dornelles lembra que muitos atores de Pelotas desistiram ou foram embora e uma geração chegou à adolescência sem ver um espetáculo no teatro do município. “Agora nós vamos estar sempre com um olhar cuidadoso, porque o artista tem que ser valorizado, pago. É uma pauta que a gente já colocou em reunião. A gente está aqui ainda, resistindo sempre”, comenta o diretor.
Participam do ato
Núcleo de Teatro UFPel; Coletivo Khaos; Você Sabe Quem (VSQ); Cia Amplitude; Coletivo Gira Riso; Estúdio Atores de Pelotas (SAP); Grupo Oficina de Teatro de Pelotas; Cia Cem Caras de Teatro IFSul; Movimento Nacional de Artistas Trans (Monart); Grupo Casa de Brinquedos; Cia de Dança Miriam Guimarães; Teatro dos Gatos Pelados; Grupo Tatá de Dança-teatro; Outras Danças; Grupo Teatro de Arte de Pelotas; Esfera Teatro Laboratório; Duo Duou; Cia Tadipalhaçada.