A aprovação, pelo Senado Federal, do projeto de lei que criminaliza a misoginia — ódio ou aversão às mulheres — e que insere o delito entre os crimes de preconceito e discriminação previstos na Lei do Racismo, foi o estopim para uma série de questionamentos começar a circular nas redes sociais, colocando em dúvida a tipificação frente a situações cotidianas.
E aqui precisamos ressaltar alguns pontos. O texto do projeto define a misoginia como a conduta baseada na crença de supremacia do gênero masculino. No próprio Senado houve reação durante a análise, com parlamentares homens defendendo alterações para isentar de punição quem cometesse o crime em casos de liberdade de expressão ou por motivos religiosos. Prevaleceu o bom senso, e todas as alterações (aberrações) foram rejeitadas.
A misoginia não é um fenômeno de 2026. Ela é secular e está presente na sociedade desde o início da nossa formação coletiva. Ainda nos sustentamos em vigas patriarcais, nas quais a mulher tem um papel de submissão. No século 21, a partir do advento da internet e da massificação do discurso, essa violência acabou se potencializando, ao permitir a aproximação de grupos com pensamento retrógrado.
E nada incomoda mais quem flerta com o preconceito do que o sucesso e as conquistas femininas. Ao deixar a casa, onde estava historicamente sentenciada a zelar pelo lar e pela família, a mulher sacudiu as estruturas sociais e se tornou alguém bem-sucedida — tão competente quanto o homem.
O monitoramento é necessário. Não podemos admitir o retrocesso e a ampliação da chamada “machosfera”, onde jovens, ainda no início da adolescência, como já se provou, vêm sendo recrutados para defender padrões conservadores, em clara oposição aos direitos femininos. Envolve também adultos inflexíveis a um mundo que apenas eles enxergam.
O projeto de lei aprovado pelo Senado merece aplausos, mas o alerta e o debate devem ser constantes. Temos um longo caminho a percorrer.
