O problema (e a solução) não é a tecnologia

Opinião

Felipe Gonçalves

Felipe Gonçalves

Psicólogo

O problema (e a solução) não é a tecnologia

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Nunca tivemos tanta tecnologia, tanta informação e tanta capacidade de prever cenários. Satélites monitoram o clima em tempo real, algoritmos analisam milhões de dados por segundo, inteligências artificiais escrevem, desenham, calculam e decidem em velocidades que nenhum humano alcança. Ainda assim, seguimos repetindo erros básicos nas empresas e em nossas vidas.

Recentemente ouvi uma palestra sobre operações espaciais e inteligência artificial responsável. Dava Newman, ex-diretora na NASA e atual no MIT, falava sobre missões na Lua, agricultura em ambientes extremos, sistemas fechados de reciclagem, simulações em realidade virtual para tomar decisões complexas. Tudo impressionante, mas o ponto mais forte não estava na tecnologia, e sim no comportamento humano que se torna cada vez mais alvo das discussões.

Segundo os pesquisadores, as mudanças climáticas não são um problema técnico. As soluções existem há anos. O desafio é coletivo, político e cultural. O mesmo vale para inteligência artificial, energia, sustentabilidade. Não faltam ferramentas, mas sim acordos e disposição para pensar “até 7 gerações a frente”, como disse dava.

A humanidade precisa se enxergar como tripulação de uma mesma nave. Não existe lado de fora. Não existe alguém que vai resolver por nós. As decisões de hoje afetam quem está aqui e quem ainda nem nasceu. Parece óbvio, mas basta olhar ao redor para perceber o quanto ainda agimos como se cada um estivesse em seu próprio planeta.

Nas empresas acontece algo parecido. Nunca tivemos tantos indicadores, dashboards, metodologias, frameworks e softwares de gestão. Ainda assim, decisões continuam sendo tomadas sem alinhamento, sem clareza e sem responsabilidade compartilhada. A cada dia que passa, nossa maturidade para lider com a enxurrada de informações disponíveis é, ao mesmo tempo, mais escassa e mais valiosa.

É comum ver organizações investindo em tecnologia para resolver problemas que são, na verdade, culturais. Compram sistemas novos, contratam consultorias, mudam processos, mas continuam premiando comportamentos que sabotam a estratégia. Querem inovação sem tolerar erro. Querem autonomia sem abrir mão de controle. Querem resultado sem assumir as consequências das escolhas.

Quanto mais complexo fica o mundo, mais dependemos de algo que não pode ser automatizado: a capacidade de cooperar com quem pensa diferente e de sustentar nossas escolhas por tempo suficiente para que elas deem resultado.

Avançamos muito naquilo que sabemos construir. Será que avançamos na mesma proporção naquilo que precisamos nos tornar?

Talvez o futuro não dependa da próxima tecnologia que vamos inventar, mas da maturidade que vamos ter para usá-la. A solução, na maior parte das vezes, já existe. O que ainda está em construção é a consciência para aplicá-la.

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