Dia da água reforça debate sobre preservação

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Dia da água reforça debate sobre preservação

Especialistas apontam que a poluição está ligada a falhas estruturais e não apenas ao comportamento individual

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Dia da água reforça debate sobre preservação
(Foto: Jô Folha)

Apesar dos avanços recentes no saneamento, Pelotas ainda trata uma parcela limitada do esgoto gerado – realidade que ajuda a explicar por que a poluição da água segue como um problema. No ranking mais recente do Instituto Trata Brasil, o município aparece na 77ª posição entre as 100 maiores cidades do país, evidenciando os desafios estruturais que ainda impactam a qualidade dos mananciais, tema que ganha destaque no Dia Mundial da Água.

Quando o esgoto não é tratado antes de chegar aos rios, ocorre a contaminação da água com matéria orgânica, nutrientes e microrganismos patogênicos. De acordo com a pós-doutoranda em Recursos Hídricos, Jéssica Torres, isso reduz o oxigênio dissolvido na água, prejudica a vida aquática e pode causar doenças à população.

A poluição hídrica afeta diretamente o cotidiano, aumentando o risco de doenças, como infecções intestinais. Além disso, compromete a qualidade de vida: rios e praias tornam-se impróprios para banho, com mau cheiro e aparência desagradável – como é o caso de alguns pontos da Praia do Laranjal. Pensando no futuro, a especialista alerta que essa degradação pode comprometer o abastecimento. “Quanto mais poluídos estiverem os mananciais, mais difícil será tratar essa água”, afirma.

Por que continuamos poluindo?

“Mesmo com possibilidade de acesso à informação, a poluição da água continua ocorrendo porque o conhecimento nem sempre se traduz em mudança de comportamento”, destaca. Para ela, a persistência desse cenário está associada a fatores culturais, econômicos e até políticos.

O próprio ambiente em que os indivíduos estão inseridos nem sempre favorece escolhas adequadas. “Quando as pessoas precisam pesquisar muito para saber onde descartar resíduos, onde ficam os pontos de coleta ou como lidar com óleo de cozinha, pilhas e eletrônicos, isso acaba se tornando uma barreira”, afirma.

Além do comportamento individual, a especialista aponta que os fatores estruturais têm peso ainda maior. “O comportamento individual geralmente está inserido em um contexto onde faltam alternativas adequadas. A ausência ou deficiência de saneamento básico, de planejamento urbano de fiscalização são determinantes”, acrescenta.

A recuperação de afluentes é tecnicamente possível, mas exige a interrupção das fontes de poluição e a restauração das matas ciliares. De acordo com a pós-graduanda em Ciências Ambientais, Jéssica Hartwig, a resposta da natureza depende do tipo de impacto. “Em casos de poluição orgânica leve, os primeiros sinais podem surgir em poucos anos. Já em corpos d’água severamente comprometidos, a recuperação completa pode levar décadas”, explica.

Saneamento é a resposta

O saneamento básico, especialmente a coleta e o tratamento de esgoto, é uma das formas mais eficazes de preservar a qualidade da água. Conforme Hartwig, é possível reduzir significativamente a poluição ao evitar que efluentes sejam lançados em rios e lagos. “A prioridade deve ser a substituição gradativa de sistemas isolados, como fossas, por redes coletoras e estações de tratamento eficientes”, afirma.

A especialista também destaca a importância de investir em sistemas de drenagem que filtrem a poluição das ruas antes que ela atinja os corpos hídricos durante as chuvas, além da preservação da vegetação nas margens e do monitoramento das bacias hidrográficas. Esses investimentos são considerados essenciais em cidades em expansão urbana, como Pelotas.

Segundo ela, o crescimento populacional e a abertura de novos loteamentos aumentam a demanda por infraestrutura de esgotamento sanitário. “Para preservar a qualidade de mananciais estratégicos, como o Arroio Pelotas e o Canal São Gonçalo, é necessário que as obras de tratamento avancem na mesma velocidade do desenvolvimento urbano”, ressalta.

Investimento em Pelotas

O Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas (Sanep) vem ampliando os investimentos no sistema de esgotamento sanitário com foco em atender às metas do marco legal do saneamento. Até poucos anos atrás, o município tinha cerca de 17% de esgoto tratado, índice considerado baixo para o seu porte.

A partir disso, foram buscados recursos para ampliar a capacidade de tratamento, com destaque para a captação de financiamento por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal. Entre as principais obras estão a construção de duas Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs):

  • ETE Engenho, com vazão de 75 litros por segundo: em fase final de preparação de edital, com previsão de início das obras no segundo semestre de 2026;
  • ETE Simões Lopes, com vazão de 225 litros por segundo: em etapa final de licenciamento ambiental junto à Fepam e análise pela Caixa Econômica Federal, com início previsto entre o final de 2026 e o início de 2027.

De acordo com o superintendente industrial do Sanep, Tiago Lopes, essas estruturas devem elevar o índice de esgoto tratado no município para cerca de 80%. Para alcançar a meta de 90%, o Sanep também estuda a implantação de tratamento individualizado em áreas mais afastadas, onde não é viável a instalação de redes coletoras. “Nesses locais, faremos o cadastro de fossas para a manutenção por meio de caminhões limpa-fossa. O esgoto coletado será encaminhado para tratamento”, explica.

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