Um problema histórico que parecia ter sido resolvido com o encerramento do contrato com a Ecosul volta a assombrar os moradores do Posto Branco e arredores, no 2º distrito de Pelotas. O projeto de pórticos de pedágios free flow, chamado de Rota Portuária do Sul, promovido pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), novamente deverá atingir a comunidade com a cobrança no perímetro urbano de Pelotas.
Em busca de respostas, os moradores da localidade realizaram uma manifestação em frente à Unidade Básica de Saúde (UBS) da Vila Princesa para protestar contra a instalação do pórtico 5, no km 515,48 da BR-116. O ato foi organizado pela Associação de Moradores, que teme impactos diretos no cotidiano da comunidade.
De acordo com a liderança local, representada por Mara Regina Soares, a principal preocupação é que a cobrança ocorra dentro da área urbana, o que obrigaria os moradores a pagar pedágio em deslocamentos diários, como ir ao trabalho, buscar atendimento de saúde ou acessar serviços básicos na cidade. “Somos uma área urbana de Pelotas. Colocar um pedágio na frente do bairro vai separar a comunidade da cidade e prejudicar o nosso dia a dia”, afirma.
Prejuízo além do Posto Branco
Além do Posto Branco e da Vila Princesa, outras localidades da região também seriam afetadas, como Colônia Py Crespo, Osório e Corrientes. Segundo os moradores, o impacto não se limita à mobilidade, mas atinge também a economia local, especialmente a produção rural e o turismo.
A comunidade relata que, durante a concessão anterior da Ecosul, moradores sem isenção chegavam a gastar cerca de R$ 700 por mês com pedágios. O novo modelo, embora com tarifas menores por passagem, pode elevar o custo total devido à cobrança automática em múltiplos deslocamentos ao longo do dia. A projeção de cobrança integral para veículos de passeio no P5 é de R$ 2,17. “Mesmo sendo mais barato por vez, no fim do mês vai sair mais caro, porque a gente passa várias vezes por dia”, explica Mara.
Caminhões da região deverão pagar mais do que antes
Outro ponto levantado é o impacto sobre o transporte de cargas. A estimativa é de que cerca de 100 caminhões circulem diariamente pela região, o que pode encarecer produtos e afetar diretamente o consumidor final. No projeto original, ANTT e Infra S.A. propuseram a cobrança de 1,5 vezes a taxa simples por eixo para veículos de carga, o que vem sendo muito criticado por lideranças políticas e sindicais da região. “De Rio grande a Camaquã pode se tornar mais caro que a antiga praça”, critica Mara.
Os moradores também criticam o aumento no número de pontos de cobrança. Segundo a líder comunitária, a substituição de antigas praças por um sistema com mais pórticos pode ampliar ainda mais os custos ao longo do tempo.
A reivindicação foi levada à audiência pública realizada na terça-feira pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), em Pelotas. A comunidade pede que o pórtico previsto seja retirado ou realocado para fora da área urbana. “Não somos contra o pedágio, mas contra ele na frente das nossas casas. Pedágio deve ser entre cidades, não dentro delas”, defende.
Os moradores também questionam o modelo de concessão previsto, com duração de 30 anos, e demonstram preocupação com a manutenção dos serviços nas rodovias. Durante a gestão anterior, destacam que havia atendimento com guinchos, retirada de animais da pista e manutenção constante — serviços cuja continuidade ainda gera dúvidas.
Comunidade relata problemas na UBS
Além da pauta dos pedágios, a manifestação trouxe à tona problemas estruturais da comunidade. Um dos relatos foi sobre a precariedade da Unidade Básica de Saúde (UBS) da Vila Princesa. Segundo o morador Nélio Ribeiro, o local enfrenta falta de limpeza, atendimento restrito e risco de interrupção dos serviços. “A médica vem só uma vez por semana e precisa limpar o posto para atender. Se ela parar de vir, como vamos ficar?”, questiona.
A dificuldade de acesso a serviços de saúde também é agravada pela escassez de transporte público, especialmente aos finais de semana, quando há poucos horários de ônibus.
A comunidade aguarda agora um posicionamento do governo federal sobre as reivindicações apresentadas. Embora encerradas no cronograma da ANTT, uma nova audiência pública ainda poderá ser realizada em Rio Grande para aprofundamento do tema. Contribuições para a construção do projeto serão recebidas pela agência até 22 de abril, no site oficial. A perspectiva é de implantar o novo plano a partir de agosto de 2027.
