Com o objetivo de promover autonomia e protagonismo feminino, o Centro de Extensão em Atenção à Terceira Idade (Cetres), da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), realizou, na manhã desta quarta-feira (18), uma oficina de fotografia com celular voltada às oficineiras do projeto. Formado e conduzido por pessoas idosas, o Cetres conta atualmente com cerca de 22 mulheres que atuam voluntariamente como ministrantes ou monitoras de grupos em atividades como artesanato, música e dança.
De acordo com o psicólogo e coordenador do Cetres, Hartur Marcel, a proposta da oficina de fotografia foi pensada em alusão ao Mês da Mulher. “Essas mulheres são responsáveis por pequenos grupos de pessoas idosas e conduzem diversas atividades. Pensando no mês de março, idealizamos uma ação que as empoderasse ainda mais e valorizasse esse protagonismo”, explica.
Fotografia como ferramenta de autoestima

(Foto: Julia Barcelos)
A ideia da oficina surgiu a partir de um passeio do grupo. Na ocasião, a fotógrafa e professora de dança do Cetres, Beka Chagas, registrou algumas imagens das participantes e percebeu o impacto positivo das fotos. “Elas me diziam: ‘Nossa, como eu fiquei bonita’, ‘Como eu fiquei bem’. Isso me chamou a atenção. Percebi o quanto elas precisam desse momento – de se verem com outro olhar”, relata.
A proposta, segundo Beka, é utilizar a fotografia como instrumento de valorização pessoal. “Hoje, com o celular, a gente tem uma ferramenta no bolso. Sabendo usar, com algumas dicas simples, é possível fazer fotos bonitas e significativas. Isso contribui para a autoestima e para que elas se enxerguem de forma diferente”, afirma.
A oficina foi dividida entre momentos teóricos e práticos. Na primeira etapa, foram apresentados conceitos básicos de fotografia com celular, como enquadramento, controle de luz, uso das configurações do aparelho e a aplicação da regra dos terços – uma das técnicas mais conhecidas da área.
Na sequência, as participantes colocaram os aprendizados em prática. Com seus próprios celulares, produziram fotos de objetos, retratos e selfies, sempre com a orientação da ministrante. Em um ambiente de aprendizado e descontração, elas compartilharam imagens, trocaram experiências e receberam orientações para aprimorar suas habilidades.
Diante da adesão do grupo, a proposta é ampliar a oferta da oficina, com a possibilidade de incluí-la na programação regular e futuramente abri-la ao público em geral.
Um espaço de convivência e transformação
Criado em 1990, o Cetres reúne mais de 200 pessoas idosas ao longo da semana. A maioria das participantes e voluntárias é composta por mulheres, muitas delas com mais de duas décadas de atuação no projeto. Atualmente, são oferecidas 29 atividades, entre elas tricô, crochê, tapeçaria, bordado em fitas, contação de histórias, dança, idiomas e ações conduzidas pela residência multiprofissional, voltadas à saúde do idoso, com estímulos físicos, cognitivos e sensoriais, além de fisioterapia preventiva.
O coordenador do projeto revela que as atividades são transformadas em impactos reais e perceptíveis na vida dos participantes. “Há relatos de pessoas que chegaram usando bengala e, com o tempo, conseguiram melhorar a mobilidade. As oficinas ajudam no combate ao isolamento social e no cuidado com o corpo e a mente”, destaca Maciel.
Para a assistente social do Cetres, Márcia de Almeida, o impacto vai além das atividades. “Isso influencia diretamente na qualidade e na expectativa de vida. No passado, muitas pessoas deixavam de realizar atividades ao envelhecer. Hoje, esse cenário está mudando”, avalia.
Histórias que se entrelaçam
Entre as participantes, é comum que as próprias ministrantes também frequentem outras oficinas como alunas. É o caso de Jussara Bernardes e Marlene Guidotti da Costa, ambas com 83 anos. As duas ingressaram no Cetres há cerca de 26 anos, logo após a aposentadoria, em busca de novas atividades.
Jussara chegou por indicação de uma amiga. “Eu não podia mais trabalhar e fiquei muito perdida. Comecei participando das aulas e, quando o Cetres veio para este espaço, passei a fazer atividades de manhã, tarde e noite. Isso aqui virou minha segunda casa. Hoje, continuo como voluntária”, conta.
Já Marlene foi convidada pela coordenação após a filha mencionar sua experiência com tapeçaria. “Não queria ficar parada em casa. Aceitei o convite, comecei a ministrar oficinas e também participei de várias atividades. Estou aqui até hoje”, relata.
Além do desenvolvimento de habilidades, o espaço se consolida como rede de apoio. “Já recebemos alunas que chegavam chorando, com depressão. Com o tempo, através da convivência e do acolhimento, elas iam se transformando. Terminavam as aulas sorrindo. Costumo dizer que minhas alunas são ‘repetentes’: elas vão e voltam porque gostam”, diz Jussara.
