A interrupção do projeto Vida Ativa levou novamente participantes até a prefeitura e depois à Câmara dos Vereadores, onde a continuidade da política social em atividade durante 13 anos foi barrada. Relatos de ganhos físicos, emocionais e sociais são a principal argumentação para a continuidade da iniciativa, que previne doenças e o isolamento social. O fim da atividade chamou a atenção do pesquisador pelotense Natan Feter, que atua na Universidade da Califórnia, para o impacto na saúde dos participantes e o impacto financeiro para o Sistema Único de Saúde (SUS).
O epidemiologista destaca que a atividade física é uma das principais estratégias de prevenção de demências, condição que ainda não tem cura. De acordo com ele, a interrupção de políticas como o Vida Ativa pode representar um retrocesso significativo. “Estamos falando de cerca de 12 mil casos de demência que poderiam ser prevenidos ao longo de 24 anos em Pelotas”, afirma.
O impacto também se reflete nos custos para o sistema de saúde. Conforme o pesquisador, esses casos adicionais podem gerar uma despesa de aproximadamente R$ 538 milhões para o Sistema Único de Saúde (SUS) no período. “É um valor muito elevado, especialmente quando comparado ao investimento necessário para manter o programa, que gira em torno de R$ 1,5 milhão por ano”, observa.
Feter, que é formado em Educação Física pela UFPel e tem pós em Epidemiologia pela UFRGS, ressalta que a demência é um problema crescente em nível global e que até metade dos casos pode ser evitada com a redução de fatores de risco, como a inatividade física e o isolamento social. “A atividade física melhora a circulação, fortalece conexões cerebrais e também promove interação social, o que reduz significativamente os riscos”, explica.
O pesquisador também chama atenção para o perfil atendido pelo programa, formado majoritariamente por mulheres, idosos e pessoas de baixa renda, grupos que, segundo ele, já apresentam menor acesso à prática de atividades físicas. “Quando se retira esse tipo de política, além de aumentar o risco de doenças, também se amplia a desigualdade”, pontua.
Impactos
Em frente ao Legislativo, a aposentada Clarize Araújo conta que a rotina de exercícios vai além da prática física. “Diminui dores, a gente vai menos ao médico, melhora a depressão. É uma convivência muito bonita, fazemos amizades, comemoramos aniversários. Para muitas, é o momento mais esperado da semana”, relata.
Segundo ela, os encontros, realizados duas vezes por semana, também funcionam como rede de apoio. “Muitas chegam tristes, se sentindo sozinhas em casa, e aqui encontram acolhimento”, completa. Ela promete seguir mobilizada até reverter a situação. “A gente não vai parar enquanto não conseguir a volta”, reforça.
Entenda
A suspensão do programa Vida Ativa ocorre após a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara de Vereadores considerar inconstitucional o projeto de continuidade e ampliação da iniciativa, pedido encaminhado pelo Executivo. Mais de três mil pessoas participavam das práticas esportivas em diferentes bairros da cidade.
Na semana passada, o líder do governo na Câmara Municipal, vereador Jurandir Silva (PSOL), apresentou recursos contra a decisão da CCJ, solicitando um novo parecer dos projetos, o que deve ocorrer hoje, segundo informou a líder dos grupos do Vida Ativa, Cátia Beatriz Barbosa da Rosa. “Se nada for resolvido, na sexta-feira, iremos protestar no Mercado Público”, adianta.
