“Mesmo o xadrez sendo algo complexo, quando somos apaixonados pelo que fazemos, nos dedicamos e aprendemos”

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“Mesmo o xadrez sendo algo complexo, quando somos apaixonados pelo que fazemos, nos dedicamos e aprendemos”

Lara Cruz - Enxadrista

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Atualizado quarta-feira,
18 de Março de 2026 às 10:33

“Mesmo o xadrez sendo algo complexo, quando somos apaixonados pelo que fazemos, nos dedicamos e aprendemos”
(Foto: Gabriel Leão)

Aos 18 anos, a pelotense Lara Cruz vem se destacando no xadrez mesmo enfrentando desafios que vão além do tabuleiro. Deficiente visual total desde os 11 anos, ela encontrou no esporte uma paixão e, com dedicação intensa, já conquistou resultados importantes, como o vice-campeonato feminino no 17° Torneio Praiano de Xadrez Rápido. Entre treinos, competições e estudos, Lara mostra que talento, disciplina e amor pelo jogo podem superar qualquer barreira.

O xadrez entrou na tua vida antes ou depois da deficiência visual?

Eu fui conhecer o xadrez alguns anos depois da minha deficiência, em 2022, através de um dos professores do clube de xadrez do colégio em que eu estudava. A gente ficou na luta pelo tabuleiro adaptado, até que chegou e a minha história com o xadrez começou. Começou de um jeito um pouco engraçado, porque eu não tinha interesse, eu conhecia, mas não tinha nenhum interesse, até que assisti a três aulas e me apaixonei.

Como eram as aulas?

Eu fazia aulas com o professor Eduardo Oliveira, ele foi o fundador do clube de xadrez no colégio Pelotense, que era onde eu estudava. Em 2024 e 2025 eu fazia as aulas no clube, e a partir do ano passado eu descobri a MXDV, a Associação de Mulheres Enxadristas Deficientes Visuais do Brasil. Essa associação é de Mogi das Cruzes (SP), voltada para o público feminino, e nela a gente tem aulas com o professor Paulo Germano, candidato a mestre nacional. Eu tenho acompanhamento com ele, inclusive para a Copa Brasil, da qual eu participei. Eu estudava umas 10 horas por dia.

Como você consegue entender a ciência do jogo?

No começo foi algo bem desafiador, porque na movimentação das peças eu já achei que não ia muito pra frente. Eu gostava muito, mas não sabia até que ponto ia chegar. Acho que quando fazemos algo que amamos, nos dedicamos e aprendemos. Mesmo o xadrez sendo algo complexo, quando somos apaixonados pelo que fazemos, a gente não sabe como explicar exatamente esse aprendizado.

Inclusive, tem uma lei da Federação Internacional de Xadrez (FIDE), em que, em torneios com pessoas que enxergam e deficientes visuais, o lance tem que ser cantado. Por exemplo: se vamos começar uma partida e tu joga o peão em D4, nessa lei da federação existe uma parte criada pela Liga Braille de Xadrez Alemã, onde eles dão nome para as colunas, para não confundir o D com B. Então, o peão D4 vira “peão Davi 4”, para não ter como confundir. Em torneios só de deficientes visuais, como tem muita gente falando o lance ao mesmo tempo, pode acontecer essa confusão.

Como foi a tua primeira competição?

Eu fui convidada para participar de um torneio em outubro de 2024, pelo meu professor Eduardo, mas eu não estava me sentindo preparada para participar. Esperei um tempo, até que, em novembro do mesmo ano, eu participei do mesmo torneio, um torneio de xadrez rápido. Foi uma experiência incrível. Conhecer pessoas novas, mas principalmente fazer algo que eu amo. O sentimento é uma felicidade indescritível.

Como é hoje a relação das mulheres no esporte? Tens colegas deficientes visuais?

Aqui em Pelotas o xadrez feminino ainda está crescendo, é uma luta pela qual eu batalho para ajudar. Fora daqui o público é um pouco maior, mas ainda estamos na luta. Eu e as meninas da MXDV estamos na luta para crescer o público feminino. Na associação, fazemos aulas que nos preparam também para dar aulas. Estamos semeando o cenário do xadrez feminino.

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