Dois meses depois da tragédia que acometeu a família Nörnberg, em uma ação da Brigada Militar que resultou na morte inexplicada do produtor de morangos Marcos Daniel Nörnberg, 48, a reconstrução é lenta. Diferente da casa, que foi destruída pelos tiros e passa a se erguer novamente, porém com um novo projeto. A mudança é para que a viúva, Raquel Nörnberg, possa entrar no ambiente sem que as lembranças da madrugada do dia 15 de janeiro pesem tanto. Mas lembrar é inevitável. Por isso, a luta por justiça e a manutenção da atividade econômica voltada à agricultura familiar sustentam a base da mãe e dos filhos, Rodrigo Motta e Fernanda Motta Azevedo.
“Reerguer a vida é um processo muito mais difícil”, diz Raquel. Segundo ela, a obra da residência já havia começado antes da tragédia. A família havia vendido a casa que tinha em Caxias do Sul e iniciado a construção em Pelotas. Enquanto a nova casa era erguida, eles moravam em uma pequena peça no terreno. “Eu precisei mudar o projeto, mudar algumas características da casa, justamente para não reviver aquele cenário. Tive que transformar um pouco o espaço para não trazer tantas lembranças”, relata.
Raquel admite que ainda não se sente preparada para voltar a morar no local. Atualmente, ela vive provisoriamente em outra residência e diz que se sente como se estivesse sem um lar. Além do luto, Raquel enfrenta o desgaste da busca por respostas sobre o que aconteceu na noite da morte do marido. Ela afirma que, até agora, não recebeu explicações oficiais, nem mesmo pedido de desculpas.
“No início houve muito envolvimento da Polícia Civil e da Corregedoria, muitas promessas de que a investigação seria rápida e que tudo seria esclarecido. Mas já estamos quase completando 60 dias e eu não tive retorno nenhum, nem da Civil, nem da Corregedoria”, comenta. Entre as iniciativas recentes está a articulação para uma audiência pública na Assembleia Legislativa, em Pelotas, que deve discutir o caso. Paralelamente, a viúva também tenta uma agenda com o governador para entregar um abaixo-assinado e apresentar pautas relacionadas à segurança pública.

Raquel admite que ainda não se sente preparada para voltar a morar no local (Foto: Jô Folha)
“Para mim é muito importante esse encontro, porque eu quero expressar o que estou sentindo. Muitas famílias me procuram dizendo que passaram por situações parecidas, mas não conseguem falar. Eu não quero representar todo mundo, mas é impossível não se sensibilizar com tantas histórias.” Para a família, o Estado precisa monitorar estatísticas envolvendo ações policiais, pois atualmente são divulgados apenas indicadores criminais. “Mas quantos casos envolvem ações policiais? Isso também é importante para a credibilidade da Brigada Militar e para a segurança da população”, afirma.
Orgulho do pai
Fernanda conta que os últimos dois meses têm sido de grande dificuldade para a família, especialmente pela necessidade de manter a produção agrícola funcionando mesmo em meio ao luto. Segundo ela, o pai era quem conduzia praticamente todas as decisões da propriedade, desde o que plantar até a forma de comercializar a produção.
Com a morte dele, ela precisou assumir essa responsabilidade. “Na agricultura não há possibilidade de parar, já que o trabalho depende do ritmo das plantações e das colheitas”, conta. Como o período de verão é justamente quando a produção de morangos aumenta, foi necessário seguir trabalhando para garantir a continuidade da atividade e o sustento da família. “Eu sinto que não consigo viver o luto, porque não tenho tempo para isso. Eu não posso me dar ao luxo de ficar dois dias no quarto, triste. Eu preciso acordar, botar água no morango, colher, entregar”, confessa.
Enquanto ela se dedica à condução da propriedade, o irmão Rodrigo Motta acaba assumindo uma presença maior ao lado da mãe na busca por esclarecimentos sobre o que aconteceu. Mas, para Motta, a mãe e a irmã se tornaram referências de força neste período. “Eu tenho o privilégio de ter sido criado por uma mulher muito forte, que também deu à luz outra mulher muito forte. Elas são o meu norte neste momento”, diz.
Trabalhando com produção de vídeo, ele decidiu usar a própria profissão para preservar a memória do pai. A família passou a produzir uma série nas redes sociais com lembranças e histórias sobre Marcos. “São episódios que estamos lançando diariamente, contando memórias sobre ele”, explica. Apesar da iniciativa, Motta reconhece que revisitar essas lembranças é emocionalmente difícil. “É muito dolorido fazer isso, porque a gente não consegue fugir do fato. A vida segue, as contas chegam, os problemas aparecem. A gente não consegue se dar ao luxo de parar”, afirma.
Futuro
O impacto emocional ainda é grande. Raquel passa por tratamento para ansiedade com atendimento público, mas os demais membros da família, que também precisam de atendimento psicológico, não receberam nenhuma assistência médica. “Eu não vi tudo o que aconteceu, mas eu ouvi, eu senti. Isso ainda me acompanha o tempo inteiro.” Raquel ainda quer se encontrar com o governador Eduardo Leite para entregar o abaixo-assinado. A secretária extraordinária para Assuntos Institucionais, Paula Mascarenhas, assim como deputados e candidatos ao governo, também receberam solicitações de agenda. Mas em meio a tantas batalhas, a viúva ainda encontra dificuldades de encaminhar o benefício junto ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), pois o 135 não completa ligação.
Investigações inconclusas
Quase 60 dias depois do início das investigações, a Polícia Civil informa que está no aguardo dos últimos laudos. Segundo a titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), delegada Walquiria Meder, a previsão é que, nos próximos dias, o inquérito seja concluído, sem especificação de uma data. “O prazo padrão é de 30 dias, mas é bastante comum ultrapassar esse prazo quando se trata de investigação mais complexa ou que dependa de elementos de prova que ainda não foram concluídos”, explica.
Já a assessoria de imprensa da Corregedoria-Geral da Brigada Militar não retornou às demandas desde o início do mês.
