Entrei na Woodstock Discos (que funcionava na rua General Telles n. 807, em Pelotas) faz já mais de dez anos. Naquele dia, o dono da loja fez questão de mostrar uma coleção de álbuns de ópera que recentemente adquirira e de me convencer que eu seria a pessoa adequada para dar o devido valor àquele material. Eram aproximadamente 150 caixas, cada uma contendo em média três vinis (muitas delas tinham seis), a maior parte praticamente intactos, bem como os libretos de ópera. O preço para adquirir tudo foi tão modesto que “Marquito” praticamente doou-me a coleção, ou, mais exatamente, confiou-a a mim.
Nos libretos de cada álbum de ópera, ou mesmo na caixa dos discos, descobri que seu antigo proprietário anotava datas e o preço que custara. Algumas caixas continham dois libretos, sendo que um deles trazia o enredo da ópera escrito à mão ou redigido em máquina de escrever. Vários libretos, especialmente os mais antigos, possuíam uma capa em papel cetim também confeccionada à mão. Analisando o material, descobri também em meia dúzia de caixas um selo com as iniciais “W.G”, bem como recortes de jornal e anotações pessoais. Depois de anos escutando algumas das óperas, dediquei-me então a analisar pormenorizadamente a coleção.
Ao que tudo indica, os álbuns de óperas foram adquiridos durante um período de trinta anos, começando em março de 1954 com a ópera La Traviata, de Verdi, e terminando com a aquisição, em abril de 1984, da Messa da Requiem, também de Verdi. O nome do apreciador de ópera surge escrito à mão no libreto de um dos álbuns, cuja capa foi confeccionada por ele: “Wilmar Giacobbe. A Traviata. Pelotas, 23 de março de 1954”. Seu nome completo vai aparecer noutro libreto em italiano (da Ricordi), dentro da caixa do álbum A Boêmia, de Puccini, com a mesma data do álbum inicial: “Wilmar Tomaz Giacobbe, 23 de março de 1954” (a aquisição deste álbum, no entanto, foi em 25/10/1960). Acerca dele somente descobri que sua profissão era a de cirurgião-dentista, com consultório na rua Dr. Cassiano, n. 284. O que importa aqui, no entanto, não é sua biografia, mas sua paixão pela ópera – que de certo modo ficou impregnada nas cento e cinquenta caixas de álbuns.
Entre as décadas de 1950 e 1960, “W.G” inicia a coleção e adquire em torno de quinze álbuns, a maior parte provenientes da “RCA Victor Rádio – Selo Vermelho”. Dentro do álbum Madame Butterfly, de Puccini, há uma dedicatória para ele, cuja assinatura é difícil decifrar, mas que diz: “Offo. questo piccolo recordo all mio cari i buon amico Wilmar, come prova della nostra grande amistà. 28/7/1960”. A julgar pela dedicatória e pelos libretos em italiano, é certo que “W.G” dividia sua paixão com pelo menos um amigo italiano e que dominava o idioma, visto que a maioria das óperas que escutava eram de compositores italianos. Sua coleção, no entanto, será montada, sobretudo, a partir da segunda metade da década de 1970, quando então adquire mais de cento e dez álbuns, arrefecendo-se na primeira metade da década seguinte, com a presença de pouco mais de dez caixas de disco.
Por meio de cada uma das caixas com os discos e libretos podemos acessar toda uma época dedicada ao gosto pela ópera. As capas dos álbuns são primorosas e trazem impressas obras ou ilustrações de grandes pintores, e também retratos das cantoras e cantores (e até mesmo imagens raras, como é caso de uma cena de balé sobre um rochedo no álbum A Gioconda, de Ponchielle, cujo crédito é dado pela RCA Victor: “Gentileza da foto: Cine Club Gaúcho”). As caixas com os discos e os libretos provém de diversos países, a maioria da Itália, Inglaterra e Estados Unidos, mas também de outros lugares, a exemplo da obra Il Pagliacci, de Leoncavallo, gravada em 1946, e comercializada posteriormente pela “Angel Indústrias Elétricas e Musicais, Fábrica Odeon S.A., Rio de Janeiro – São Paulo – Porto Alegre”.
Do mesmo modo, é possível identificar muitos dos locais em que os álbuns eram comprados por meio dos selos colocados nas caixas dos discos: Puccini, adquirido em 18/07/1955, no “Bazar Edison, Rua XV de Novembro, 3308, Pelotas”; Giordano, com um libreto da “Casa Musicale Sonzogno”, de Milão, que traz um adesivo da “Tabacaria Pelotas. Rua XV de Novembro, 632” (e a data anotada à lápis: “novembro de 1956”); Verdi, comprado em 1976, com carimbo da “Casa Beethoven, Galeria Chaves, Porto Alegre”.
Cirurgião-dentista que foi particularmente cuidadoso na conservação e preservação de seus álbuns, no próximo artigo me dedicarei a explorar seus compositores, maestros e intérpretes prediletos no interior deste vasto, rico e inebriante universo da ópera.

