Aumento do litro do diesel pode parar transporte em Pelotas

Mercado

Aumento do litro do diesel pode parar transporte em Pelotas

No cenário de incertezas, o ajuste será repassado ao custo do frete e, consequentemente, aos produtos

Por

Aumento do litro do diesel pode parar transporte em Pelotas
(Foto: Jô Folha)

Uma declaração sobre a guerra no Oriente Médio e o preço do combustível oscila. O mercado global se movimenta e quem sente os reflexos são os consumidores, principalmente quem depende do óleo diesel. Na Zona Sul do Estado, além de falta combustível para os maquinários que fazem a colheita do arroz e da soja, o transporte é o primeiro a sentir os efeitos de um aumento de 50% no litro do combustível, sem sinalização por parte da Petrobras, que garante estoque. A Sulpetro diz que a demanda está maior que oferta e que o momento é de cautela e o Ministério de Minas e Energia diz que está monitorando a situação.

O Consórcio que administra o transporte público em Pelotas adianta que haverá diesel até sexta-feira, este já adquirido com ajuste de 30%. Em Rio Grande, a prefeitura restringiu a circulação de ônibus em horários de menor movimento. Já os caminhoneiros, quando pensaram em economizar com pedágio, já pagam R$ 2,00 a mais na bomba. Nós postos, o preço praticado varia de R$ 6,69 a R$ 7,14. Na tabela semanal de combustíveis, no período de 21 a 28, o diesel B S10 estava cotado na revenda a R$ 6,09. Na semana de 1º a 7 de março, a R$ 6,15.

Segundo o diretor-executivo do Consórcio de Transporte Coletivo de Pelotas (CTCP), Enoc Guimarães, o setor acompanha com preocupação a retração na oferta de diesel e o aumento no custo do frete para abastecimento. De acordo com ele, o combustível utilizado pela frota está sendo transportado a partir de Canoas, o que encarece a logística. “O valor do frete, por exemplo, passou de cerca de R$ 0,12 para R$ 0,20 por litro”, explica.

Uma compra realizada no início da semana garantiu o abastecimento da frota até sexta-feira. No entanto, o consórcio já recebeu alertas de distribuidoras sobre limitações no fornecimento. “Algumas informaram que estão operando com apenas 70% da cota habitual, além de aplicar reajustes de aproximadamente 30% sobre os preços que vinham sendo praticados”, afirma. O consórcio mantém contato com a prefeitura e monitora o cenário para avaliar como ficará o abastecimento nos próximos dias.

Alta do diesel pressiona transporte

O aumento no preço vai resultar em reajustes no valor do frete. A afirmação é do presidente do Sindicato dos Transportadores Autônomos de Bens de Rio Grande (Sindicam), Dieck Correa Sena, que garante que os caminhoneiros não têm mais condições de absorver o aumento. “Infelizmente não tem como o caminhoneiro hoje segurar mais esse custo. O aumento já está na bomba e isso acaba chegando diretamente no transporte”, afirma.

Segundo ele, o litro do diesel, que vinha sendo comercializado em média a R$ 5,60, já ultrapassa R$ 7,00 em alguns pontos do Estado. “Para quem abastece um caminhão, a diferença já passa de R$ 1,5 mil em um único abastecimento”, explica.

De acordo com Sena, transportadores já iniciaram negociações com clientes para reajustar contratos. “Já estamos conversando com clientes e transportadoras para tentar amenizar o impacto, mas sabemos que isso vai afetar. Não tem como não afetar”, diz. O dirigente também alerta que o aumento do frete tende a repercutir em toda a cadeia produtiva. “Logicamente isso vai impactar na mesa do brasileiro”, afirma. O sindicato encaminhou ainda um ofício a um deputado federal Alexandre Lindenmeyer (PT) solicitando que o tema seja levado ao governo federal e ao Ministério Público para investigação das causas da alta.

Segundo ele, cerca de 20% do diesel consumido no país ainda precisa ser importado. “O Brasil tem produção suficiente de petróleo e mais de 50% do que extrai acaba sendo exportado. O problema é que não temos capacidade de refino suficiente para todo o consumo”, explica Sena. Para ele, há especulação no mercado interno que pressiona os preços.

Caminhoneiros relatam impacto imediato

Nas estradas, motoristas já sentem o peso do aumento no orçamento diário. O caminhoneiro Cristiano Fernandes Oliveira, 50, que transporta cargas entre Pelotas e Dom Pedrito, afirma que a alta no diesel preocupa o setor. “Não tem o que fazer. Enquanto não tiver solução para aquela guerra no Oriente Médio, a tendência é aumentar. O frete vai ter que subir para compensar”, avalia.

Já o motorista Gustavo Dias, 33, que faz transporte de cargas no Mercosul, relata que o impacto é imediato para quem depende do caminhão para trabalhar. “Numa subida de R$ 2,00 no litro do diesel, isso pesa muito. O frete nunca sobe na mesma proporção. Quando sobe, é muito pouco”, afirma.

Ele explica que muitos caminhoneiros esperavam algum alívio financeiro com o fim de pedágios em alguns trechos rodoviários, mas foram surpreendidos pela alta do combustível. “Só em pedágio eu gastava mais de R$ 100,00 por praça. Agora o diesel sobe R$ 2,00 de uma vez”, relata.

Efeito chega aos preços

Para o professor de Economia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e pesquisador, Marcelo Passos, o aumento do diesel deve provocar um efeito em cadeia na economia. “Com certeza vai haver repasse da alta do diesel para os fretes das transportadoras. E aumentando o frete aumentam também os produtos que são transportados pelos caminhões”, explica. Segundo ele, o mecanismo é conhecido na economia: primeiro sobe o combustível, depois o frete e, por fim, o preço dos produtos ao consumidor. “A consequência imediata é justamente essa transmissão de preços.

Demanda maior que a oferta

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis do Rio Grande do Sul (Sulpetro), João Carlos Dal’Aqua, afirma que o cenário atual não é de desabastecimento, mas de restrição no fornecimento. Segundo ele, as distribuidoras estão reduzindo o ritmo de venda enquanto avaliam os próximos movimentos do mercado.

“Não há desabastecimento generalizado. O que existe é uma restrição, porque as distribuidoras estão sendo mais cautelosas na liberação dos estoques”, explica. Ele também observa que postos com contratos fixos com distribuidoras têm prioridade no fornecimento. “Quem tem contrato recebe primeiro. Quem não tem acaba ficando no final da fila”, afirma.

Para Dal’Aqua,a  Petrobras precisa sinalizar um preço enquanto o momento é de incerteza em função da Guerra no Oriente Médio. Ele ressalta ainda que o aumento recente do preço do barril no mercado internacional tende a pressionar os custos no Brasil. “Temos um aumento de quase 50% no custo do barril, e isso inevitavelmente acaba refletindo no mercado”, diz.

Governo monitora mercado

O Ministério de Minas e Energia informa, por meio de nota, que intensificou o monitoramento do mercado de combustíveis no país. Segundo a pasta, equipes técnicas realizam acompanhamento diário das cadeias de suprimento e da logística de distribuição para avaliar impactos no abastecimento e nos preços. Até o momento, o governo federal avalia que a exposição direta do Brasil ao conflito é limitada, embora o país ainda dependa da importação de parte do diesel consumido internamente.

Para aliviar as tensões, ontem foi realizado um leilão de 20 mil litros cúbicos de combustível.

Acompanhe
nossas
redes sociais