Dar voz a quem aprende e a quem ensina. Começando o segundo ano de realização, o podcast do Colégio Gonzaga pode ainda ser considerado uma iniciativa recente, porém já se tornou unanimidade para estudantes e professores da escola. Produzido e apresentado por alunos do Ensino Médio, o projeto, que nasceu a partir de um trabalho escolar, rapidamente se consolidou como um laboratório de aprendizagem, comunicação e protagonismo estudantil.
Criado inicialmente como projeto pedagógico, quando os estudantes foram desafiados a criar um podcast, cada um feito a partir da iniciativa dos alunos, a ideia incentivou a criação de um espaço específico para gravações dentro da escola. “Atendemos ao anseio deles”, explica o coordenador de Comunicação e Marketing do Gonzaga, Henrique Vetromilla.
A partir do insight, a escola decidiu estruturar um estúdio próprio; não como ferramenta institucional de marketing, mas como recurso pedagógico. “Não montamos o estúdio para ser usado pela comunicação e marketing. Montamos para o uso pedagógico, para os alunos estudarem, aprenderem e evoluírem”, diz Vetromilla.
Em um primeiro momento, exclusivo para uso do Ensino Médio, o projeto coloca os estudantes como protagonistas nas decisões. Etapas como definição de pauta, escolha de entrevistados, elaboração de roteiros, apresentação, gravação e bastidores são feitas pelos alunos. Há supervisão do setor pedagógico e da comunicação, mas as decisões partem deles, informa Vetromilla. “Talvez o diferencial do nosso podcast é isso: é feito pelos alunos, em tudo”, avalia.
No primeiro ano, iniciado no segundo semestre de 2025, foram produzidos cerca de cinco episódios, com média de um por mês. A meta é chegar a duas edições mensais, respeitando a rotina intensa de preparação para o Pave e o Enem. As gravações ocorrem no turno inverso das aulas, reforçando o caráter extracurricular da atividade.
Pautas atuais
Entre os temas que já foram abordados, destacam-se a COP30, o PAVE, o Enem e assuntos ligados ao cotidiano escolar, como o episódio sobre a volta às aulas. No caso da COP30, os alunos convidaram a professora de História Tayane para aprofundar o debate.
“Eles têm que se inteirar sobre o assunto, preparar o roteiro, trazer o entrevistado”, conta Vetromilla. O processo exige pesquisa, organização e responsabilidade, competências que extrapolam o conteúdo específico de cada episódio.
Maria Eduarda Weymar, do 3º ano, participou como entrevistadora no episódio sobre a COP30. “Foi muito divertido, foi esclarecedor sobre o tema”, diz. Como primeiro episódio de 2026, já disponível no canal do YouTube da escola, foi escolhido o tema Volta às Aulas. “É um tema interessante, porque vai começar o ano e é muito legal para nós sabermos como será a programação e poder contar para a comunidade do Gonzaga.”
Da produção à gravação
Para a aluna Lívia Appel, do 3º ano, participar desde o início foi legal. “Eu achei interessante e quis participar pois eu gosto bastante de falar”, relata. Apresentadora desde o começo do projeto, ela destaca o aprendizado em comunicação como um dos principais ganhos da participação. “Eu preciso ter uma linguagem clara e direta. Isso vai fazer com que eu melhore a maneira como falo. Quando eu sair daqui, entrar na faculdade, no mundo do trabalho, eu preciso ter uma comunicação clara”, justifica.
Conforme Maria Eduarda, o podcast amplia o sentimento de pertencimento. “Eu acho muito legal o colégio oferecer isso, dar oportunidade para os alunos se sentirem mais pertencentes ao Gonzaga.” A estudante, que pretende seguir a área da saúde, avalia que a participação na realização do podcast poderá ajudá-la profissionalmente no futuro. “Na saúde a gente tem muito contato com pessoas. É importante trabalhar a oratória, falar bem para conseguir comunicar as ideias.”
A experiência também se revelou decisiva para escolhas profissionais. Conforme Vetromilla, teve uma ex-aluna do colégio, formada no final de 2025, que após participar do podcast, optou por seguir carreira na área da comunicação. “A vivência prática ajudou a transformar dúvida em convicção”, relata.
Os episódios estão disponíveis para toda a comunidade escolar. Publicados no YouTube e no Spotify, eles ampliam o acesso à informação e incentivam outros estudantes a se aprofundarem em temas atuais. “Às vezes os colegas não se interessam tanto por livros ou conteúdos mais informativos. O podcast é uma iniciativa muito boa para aprender e passar informações de uma forma que eles gostem de assistir e escutar”, avalia Maria Eduarda.
Desenvolvimento da inteligência linguístico-verbal
Sob a perspectiva pedagógica, a coordenadora Adriana Rosinha explica que o projeto dialoga diretamente com as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente no desenvolvimento da inteligência linguístico-verbal. “O aluno tem aulas de linguagem, mas pouco espaço de interação, de uma fala mais adequada ao interesse deles. O podcast vem como ferramenta pedagógica para tratar temas atuais e desenvolver essa habilidade”, comenta.
De acordo com a coordenadora, mais do que produção de conteúdo, trata-se de educação digital e comunicativa. Os estudantes ainda participam de todas as etapas técnicas, como luz, captação, organização, e assumem o compromisso de estruturar roteiros e estudar as temáticas. “Eles sabem que sem o roteiro, não conseguirão fazer o podcast. Então eles estudam como estruturar, estudam a temática”, ressalta Adriana.
O ganho, segundo ela, é tanto cognitivo quanto emocional. “Tu ter coragem de vir aqui entrevistar um adulto, falar ao vivo… desenvolve habilidades incríveis. A sala de aula, às vezes, não consegue oportunizar isso”, explica. O podcast, pensado para ser transdisciplinar, vai além dos conteúdos previstos nos componentes curriculares e oferece vivências que ampliam repertório, autonomia e responsabilidade, completa Adriana.
Expansão do projeto
Para 2026, de acordo com Vetromilla, o plano é expandir o projeto. “Temos a proposta de levar o estúdio para o pátio da escola, aproximando ainda mais a experiência do cotidiano estudantil e permitindo que as gravações sejam acompanhadas ao vivo pelos colegas”, adianta.
A iniciativa, que contribuiu para a escola permanecer como referência de formação na região, transforma um trabalho de sala de aula em um laboratório permanente de aprendizagem. “O podcast não é apenas um canal de comunicação: é um espaço onde os alunos experimentam, erram, pesquisam, perguntam e se posicionam”, diz Adriana. Para a coordenadora, em um cenário educacional que exige competências múltiplas, o projeto demonstra como atividades extracurriculares podem fortalecer habilidades cognitivas, emocionais e sociais.
