Futsal Down da Apadpel transforma vidas e coloca Pelotas no mapa da modalidade

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Futsal Down da Apadpel transforma vidas e coloca Pelotas no mapa da modalidade

Time, que começou a jogar em outubro de 2022, este ano será o cicerone do Campeonato Brasileiro

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Atualizado domingo,
22 de Fevereiro de 2026 às 08:56

Futsal Down da Apadpel transforma vidas e coloca Pelotas no mapa da modalidade
(Foto: Jô Folha)

Criado em outubro de 2022, o time de Futsal Down da Associação de Pais de Pessoas com Síndrome de Down de Pelotas (Apadpel) nasceu de um movimento de mobilização e hoje é referência no Rio Grande do Sul. Coordenado por Cátia Vieira e pelo jornalista André Müller, o projeto reúne cerca de 25 atletas, com idades entre 15 e 47 anos, e já se prepara para sediar, em dezembro deste ano, o Campeonato Brasileiro da modalidade.

A semente foi plantada a partir da criação da primeira torcida organizada formada por pessoas com síndrome de Down no país, a Xavadown. A iniciativa, também de 2022, foi de Eduardo Moraes, o Dudu, com o apoio da Apadpel. A visibilidade levou a entidade a conhecer experiências de futsal down em outros estados, especialmente a da Ponte Preta S21, de Campinas, campeã brasileira e que tem em seu elenco Renato Gregório, eleito três vezes o melhor jogador de futsal down do mundo.

Incentivados pelo coordenador da equipe paulista, Maurício Carvalho, os pelotenses deram o primeiro chute em 15 de outubro daquele ano. “Conseguimos tornar realidade a primeira torcida organizada de pessoas com síndrome de Down, do Brasil. A partir disso, a gente começou a ter contato com outras pessoas do futebol e do futsal, porque, com a criação da torcida, o Brasil todo nos procurou e ficamos sabendo mais sobre o futsal Down, até que tinha um time brasileiro, que era campeão mundial. Começamos a ter contato com o Maurício, que é o da Ponte Preta, e ele simplesmente começou a incitar”, relembra Cátia, que também é da diretoria da Apadpel.

Cátia relembra que Carvalho dizia: “Vamos criar um futsal aí em Pelotas, no Rio Grande do Sul não tem nenhum time. Que seja o primeiro em Pelotas”.

Esses primeiros contatos começaram bem na sequência da divulgação da Xavadown. “Em maio a gente fez a primeira live com o Maurício. Em outubro, começamos. Foi muito rápido”, comenta Cátia, mãe da Sofia, também down. A própria menina chegou a jogar no time. Atualmente o grupo é composto só por atletas masculinos.

Complemento da vida

Hoje, os treinos acontecem aos sábados e raramente há faltas. “Eles contam os minutos para chegar o dia do treino. Quando paramos por 30 dias, a pergunta era sempre: quando volta?”, relata Cátia Vieira.

O time é comandado por Geverton Duarte, ex-jogador profissional com passagens por clubes como Grêmio, Coritiba e Figueirense. Ele assumiu a equipe poucos meses após a fundação e, desde então, define o trabalho como um dos momentos mais nobres de sua trajetória. “Talvez seja o complemento da minha vida. O retorno que recebo deles é muito maior do que qualquer coisa que eu ofereça”, afirma.

Formado em Educação Física aos 55 anos, Geverton, que treinou jovens da base do Guarani de Bagé, leva para os atletas da Apadpel toda a experiência acumulada em quatro décadas no futebol profissional. Segundo Duarte, as regras seguem as do futsal convencional e os jogos costuma ser disputados e “pegados”. Mas para o técnico o principal objetivo é ver os meninos evoluírem nas condições motoras e psicossociais.

“A inclusão começa como proposta, mas hoje há competição de alto nível. Ainda assim, nosso principal resultado é ver todos evoluindo dentro das suas possibilidades”, destaca. E o resultado tem sido positivo. “É bom a gente se sentir abraçado, se sentir querido, se sentir respeitado, porque eles têm uma vida. Eu digo sempre, de uma maneira pode soar estranho, o down é o ser humano que deu certo, em cima das suas limitações”, fala o professor.

Evolução

E a evolução é perceptível, principalmente para quem convive diariamente com os atletas do futsal down de Pelotas. A professora universitária Vanessa Barreto Pereira, mãe de Rafael Pereira Pinto, 17 anos, conta que o filho, que é down não-verbal, inicialmente sequer descia do carro. “Ele não se misturava, não participava. Hoje faz todas as atividades. E o mais importante é o pertencimento. Aqui ele não é invisível”, diz.

A psicopedagoga Ísis Sebaj, mãe de Isaac, também de 17 anos, relata que o sonho do filho sempre foi jogar futebol. Quando pequeno, chegou a frequentar escolinhas de futebol convencionais, porém enfrentou dificuldades motoras e barreiras sociais. “Quando surgiu o Futsal Down, foi vida para ele. Antes queria ser Neymar. Agora quer ser Renato Gregório. Agora ele tem uma referência down”, celebra Ísis.

Além do desenvolvimento físico e da coordenação motora, as famílias destacam a autonomia. Em viagens para campeonatos, os atletas já permaneceram dias em alojamentos sob supervisão técnica. Em março, por exemplo, parte do grupo embarcará para Brasília, para alguns, a primeira experiência de avião.

Estimular outras iniciativas

Nestes quase quatro anos de atividades, Pelotas recebeu equipes de outras cidades e participou de competições em Campinas, Lorena, Novo Hamburgo e Rio Grande. A cidade foi pioneira no Estado e hoje já existem iniciativas em Porto Alegre, Novo Hamburgo, Portão e Gravataí.

O objetivo é fortalecer a modalidade e, no futuro, viabilizar um Campeonato Gaúcho, destaca Cátia. “A ideia é essa, né, cada vez que a gente consegue jogar fora, estimular que lá naquela cidade seja montada outra equipe”, argumenta a diretora.

Para este ano, a Apadpel se organiza para receber entre 12 e 14 equipes no Brasileiro, previsto para 7 a 13 de dezembro. O desafio envolve estrutura de alojamento, alimentação, arbitragem e apoio logístico. “Queremos fazer um campeonato maravilhoso e mostrar a força do futsal down”, projeta Cátia.

Ajudas fundamentais

Mas manter a equipe ativa é um desafio constante. Uma das ajudas vem da diretoria do Paulista Futebol Clube, entidade com 83 anos, que empresta a quadra para as atividades da equipe. Algo fundamental para a continuação do trabalho. “No nosso caso a gente tem o patrocínio da quadra, cedida pelo Paulista, que é um facilitador para nós cedida pelo paulista. Então não temos esse custo”, celebra Cátia. Por sua vez, Geverton Duarte faz questão de enaltecer a iniciativa da direção do Paulista. “Sou muito grato”, fala.

Para driblar custos com outros insumos, como o uniforme, a Apadpel participou por duas vezes do edital do governo do Estado, Todos no jogo, realizado por meio da Secretaria do Esporte e Lazer. “A gente conseguiu comprar o primeiro uniforme agora chegando hoje o colete para o pessoal”, esclarece a coordenadora. O time ainda conta com o auxiliar técnico, Flávio Mendes, pai de um dos atletas, e com o preparador de goleiros Moacir Gotuzzo, também ex-atleta do futebol profissional.

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