Ele sempre foi um grande leitor.
Na sala de casa, mal acordava e já o encontrava agarrado nos jornais, nas revistas, sempre lendo sobre qualquer coisa que pudesse ser lida: crimes, aquela matéria sobre futebol, política, bolsa de valores.
Mensagens de texto, podia lhe garantir que ele lia mais de 100 por dia, rolando a tela do celular a cada momento, enquanto seu olho passava rapidamente sobre cada verbo.
Entretanto, nunca leu nenhuma palavra sequer que saiu da minha caneta. Dos textos de amor aos textos de discussão.
Como escritora que sou, sempre achei uma falta de noção ter os textos lidos por todos, menos pelo destinatário dos versos calorosos e apaixonados que vieram diretamente do meu coração.
Seus olhos nunca passaram por cima das letras que formavam sílabas, as sílabas que formavam palavras, as palavras que formavam os meus poemas.
Para ele, era apenas mais uma poesia de amor que nunca o tocou.
Dos versos aos textos, dos textos aos áudios, dos áudios aos vídeos, sempre fechou os ouvidos e os olhos para mim.
Então decidi ir embora de sua vida, carregando uma bagagem de livros, papéis, revistas. Ao sair pela porta da casa vazia, observo me encarar em silêncio até sentir ele tocar no fundo da minha alma.
Dentro do meu olho, pela primeira vez, ele encontrou uma e única palavra que não se negou a ler, e ao sussurrar baixinho o escutei falar:
“Despedida”