Somos corruptos

Opinião

Jarbas Tomaschewski

Jarbas Tomaschewski

Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul

Somos corruptos

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No Índice de Percepção da Corrupção (IPC), o Brasil mantém-se estagnado e abaixo da média global, com míseros 35 pontos, em um patamar distante dos países mais bem avaliados pela Transparência Internacional, responsável pelo levantamento que nos coloca na 107ª posição entre 182 países.

O ranking permite alguns olhares. São 75 nações em um cenário pior do que o nosso. Os dez primeiros à nossa frente são Ucrânia, Belize, Argentina, Zâmbia, Lesoto, Gâmbia, República Dominicana, Colômbia, Suriname e Cazaquistão. A Dinamarca, eterna número um no Índice de Percepção da Corrupção (oitavo ano consecutivo), ostenta 89 pontos. A Finlândia vem em segundo, com 88, e Cingapura em terceiro, com 84 pontos.

Ao interpretar o IPC, a Transparência Internacional bate na mesma tecla: “O resultado mantém o país em um patamar historicamente baixo, reforçando uma trajetória marcada por fragilidade institucional, baixa efetividade dos mecanismos de integridade e dificuldades persistentes de controle da corrupção no setor público.”

Nossa derrocada também é histórica. Na série, caímos a cada período do levantamento: 2012 (43), 2013 (42), 2016 (40), 2018 (35), 2019 (35) e 2024 (34).

A corrupção faz vítimas sem deixar corpos como prova. Muitos até aparecem, mas com outra roupagem: saúde, educação, habitação, segurança, trânsito… onde as condutas desviam recursos e quebram regras, em um aprofundamento de cenários estratégicos para a vida em sociedade.

O órgão aponta os efeitos danosos da corrupção em quatro áreas críticas: justiça e estado de Direito, democracia e integridade política, espaço cívico e liberdade dos meios de comunicação, e serviços públicos e desigualdade. “Em cada uma dessas dimensões, as condutas corruptas fazem mais do que apenas desviar recursos ou violar normas: elas reconfiguram os incentivos sociais e aprofundam as disparidades de poder.”

Mas, afinal, como melhorar um cenário tão ruim?

Estudos indicam que o combate deve ir além do controle e da punição em órgãos estatais, de agentes públicos e privados contaminados pelo crime. É necessário, culturalmente, fortalecer as ferramentas que coíbem tais comportamentos. E aí entra a figura do acomodado cidadão brasileiro, pouco interessado em fiscalizar, apontar e cobrar, e mais fadado a aceitar a normalidade das coisas e suas consequências. Precisamos deixar de concordar com quem estaciona em vaga para idosos, não presta contas da administração do condomínio, mente para usar o sistema de cotas no ensino, faz rachadinha com o salário dos assessores, aceita esquemas em licitações públicas, promete emprego durante a campanha eleitoral, cria golpes para enganar aposentados. Precisamos nos rebelar.

A distância também segue longa entre o trabalhador comum e quem goza das vantagens protetivas da Justiça e da política. São sistemas que igualmente precisam de mudanças no Brasil, nos pilares onde a corrupção encontra espaço para se esconder e não ser incomodada.

Copiar quem é exemplo não é vergonha, é ser inteligente. A receita, hoje, está com a Dinamarca. Lá, a fórmula aponta caminhos práticos para reduzir ambientes corruptos:

– Reduzir as regalias dos políticos, com salários menores e corte de benefícios exclusivos, independentemente do cargo.

– Atacar e asfixiar a indicação para cargos.

– Manter transparência ampla, em todas as instâncias.

– Garantir uma polícia confiável e hábil.

– Perseguir a punição contra propina, abuso de poder público, peculato, fraude, lavagem de dinheiro e suborno.

– Ter confiança social, a ponto de comprar no comércio e deixar o dinheiro para o funcionário ausente.

– Fortalecer as ouvidorias contra o governo e garantir respostas efetivas a críticas e reclamações.

– Sustentar o combate constante a toda forma de corrupção.

Quem chegou até aqui na leitura talvez esteja se perguntando se isso é para nós. Eu respondo que sim. E pondero: dos oito pontos listados, qual a dificuldade de implantá-los nos municípios, no estado ou no Brasil? Em prefeituras, Câmaras de Vereadores, governos, empresas e instituições? Precisamos mudar e nos exigir mais.

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