A Universidade Federal do Pampa (Unipampa) desenvolveu um modelo de inteligência artificial (IA) capaz apoiar o diagnóstico precoce do câncer de pele, especialmente em regiões com escassez de dermatologistas. A pesquisa foi conduzida pela estudante de Engenharia de Computação Eduarda Silveira, sob orientação do professor Sandro Camargo, e teve seus resultados publicados na Revista Brasileira de Cancerologia, do Instituto Nacional do Câncer (Inca).
Como essa ferramenta funciona na prática?
Eduarda Silveira: Uma inteligência artificial foi treinada com imagens obtidas por dermatoscópio. Ela é inserida no sistema de IA, que realiza a análise e prediz o tipo de lesão, se é benigna ou maligna, e apresenta uma porcentagem de probabilidade relacionada ao tipo de câncer identificado. Essa ferramenta é um código que atualmente é aberto, fizemos algumas alterações para que ele fosse capaz de realizar a detecção dessas imagens. Até o momento os resultados têm sido positivos.
Como surgiu essa ideia?
Eduarda Silveira: Desenvolvi essa ferramenta para o meu trabalho de conclusão de curso. Entrei em contato com o professor Sandro há cerca de um ano e meio, com a ideia de desenvolver uma detecção por imagem, porque queria algo relacionado à integração da universidade com a comunidade externa. Perguntei se poderia ser meu orientador e ele aceitou. Depois, expliquei que queria seguir esse nicho. A partir disso, surgiu a proposta de desenvolver uma ferramenta voltada à detecção de câncer de pele.
Professor Sandro, quando a Eduarda lhe apresentou essa ideia, como foi a sua reação?
Sandro Camargo: Temos um conjunto de disciplinas em que ensinamos as técnicas mais modernas de IA. Após esse processo inicial, os alunos são incentivados a buscar problemas do mundo real e aplicar a tecnologia nesses contextos, avaliando os resultados obtidos. O trabalho da Eduarda é um dos melhores exemplos que temos aqui, embora existam vários casos que buscaram problemas extremamente interessantes.
Quando se fala em 80% de acerto, o que isso significa exatamente?
Sandro Camargo: A IA analisa uma imagem e sugere um diagnóstico em cerca de um segundo. Imaginem um serviço de saúde que tenha exames dermatológicos de até 500 pacientes. A inteligência artificial tem a capacidade de ranquear esses resultados e indicar quais são prioritários para atendimento. O principal avanço está justamente nessa possibilidade. Um paciente com uma lesão benigna tende a ocupar uma posição mais baixa na fila, enquanto um caso detectado como maligno e grave pode ser priorizado. É importante destacar que o diagnóstico por imagem, no contexto dermatológico, é uma atividade que, por lei, é exclusiva do médico. A IA não pretende substituir o profissional de saúde, nem se sobrepor à sua autoridade. Ela funciona como uma ferramenta de apoio ao especialista.
Como podemos imaginar a aplicação prática desse trabalho?
Eduarda Silveira: Atualmente, a nossa principal ideia é que essa ferramenta possa ser aplicada no Sistema Único de Saúde (SUS). Também desenvolvi um aplicativo, que hoje funciona como uma versão demonstrativa, e precisa de uma imagem obtida por dermatoscópio para realizar a detecção. Ele ainda está em fase de aprimoramento, mas a ideia é que possa auxiliar o profissional também dentro do consultório. Um contexto em que imaginamos grande utilidade é em locais com alta demanda de atendimentos. Muitas vezes, o médico precisa avaliar pacientes que apresentam várias lesões o que torna o diagnóstico mais demorado. Nesse cenário, o profissional pode capturar as imagens durante o exame, submetê-las à inteligência artificial e, a partir disso, a IA faz uma priorização. Dessa forma, a ferramenta auxilia na triagem, reduz o tempo de atendimento médico e possibilita que mais pessoas sejam atendidas no mesmo período.
Sandro Camargo: Um ponto importante a ser destacado é o motivo pelo qual a inteligência artificial consegue apresentar resultados tão expressivos. O olho humano possui um limite para distinguir tonalidades de cores, já a câmera de um computador consegue diferenciar cerca de 16 milhões de cores. Assim, mínimas variações de tonalidade, imperceptíveis ao olho humano, são levadas em consideração. Esse é um dos grandes benefícios da tecnologia. Inclusive, estamos nos preparando para submeter, até o dia 20, um projeto em um edital, com o objetivo de viabilizar o uso da ferramenta no SUS.
