Ministério Público investiga gestão de estagiários na Câmara de Pelotas

Polêmica

Ministério Público investiga gestão de estagiários na Câmara de Pelotas

Legislativo pelotense tem prazo até sábado para apresentar documentos sobre contratação, supervisão e desligamento

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Atualizado quinta-feira,
12 de Fevereiro de 2026 às 08:58

Ministério Público investiga gestão de estagiários na Câmara de Pelotas
Questionamento aponta falta de transparência no processo. (Foto: Jô Folha)

O Ministério Público estadual está apurando a contratação e a gestão de estagiários na Câmara de Vereadores de Pelotas, após denúncia anônima que apontou ausência de transparência e questionou a regularidade administrativa desses vínculos no exercício de 2025. A reportagem teve acesso integral ao procedimento instaurado pelo MP, à denúncia que deu origem à apuração e a documentos internos da Câmara relacionados ao desligamento de estagiários.

No despacho inicial, o promotor José Alexandre Zachia Alan registra que, após consulta aos sistemas públicos disponíveis, não foi localizada lista nominal de estagiários no Portal da Transparência nem contrato formal visível com o agente de integração. O documento, enviado ao legislativo em 15 de janeiro, determina a expedição de ofício à presidência da Câmara, com prazo de 30 dias para apresentação de esclarecimentos e documentação. Portanto, até 14 de fevereiro, próximo sábado.

Denúncia apontou ausência de lista pública

No texto, o denunciante afirma: “em uma busca junto ao portal da transparência do poder legislativo de Pelotas não localizei nenhuma lista pública dos estagiários, apenas de servidores e de cargos em comissão”. A denúncia também menciona os valores pagos ao agente de integração. Segundo o relato: “verificando credores junto ao poder legislativo foi possível constatar que o contrato junto ao CIEE de janeiro a novembro já recebeu 2,3 milhões de reais”.

A partir dessa informação, o MP realizou diligências próprias. A reportagem confirmou, por meio da aba de credores do Portal da Transparência da Câmara, que os empenhos em nome do Centro de Integração Empresa-Escola somaram R$ 2.681.115,67 em 2025, considerando os repasses à matriz e à unidade local.

No mesmo documento, o denunciante menciona a possibilidade de uso indevido da função de estágio, ao afirmar que a situação poderia “criar as condições para a contratação de ‘assessores disfarçados de estagiários’”. A expressão integra as hipóteses apresentadas na denúncia, mas não constitui conclusão do Ministério Público, que permanece em fase preliminar de apuração.

O ofício encaminhado à presidência da Câmara solicita a lista nominal de estagiários ativos, termos individuais de compromisso, comprovantes de matrícula e frequência, identificação de supervisores e informações sobre o processo seletivo adotado. Pela lei, o estágio exige vínculo educacional ativo, supervisão formal e controle de frequência. A verificação desses elementos permite confrontar registros administrativos com a efetiva prestação das atividades.

Documento interno registra demissões

A reportagem teve acesso a e-mail institucional do setor de Recursos Humanos da Câmara, enviado em 26 de janeiro de 2026, com o assunto “RESCISÃO ESTÁGIO”. No corpo do texto, estagiários são listados como exonerados “na data de 31/12/2025”. O documento indica que a formalização do encerramento dos vínculos ocorreu semanas após a data atribuída à rescisão. A reportagem não localizou, até o momento, publicação detalhando os critérios adotados para o registro retroativo.

Por outro lado, a reportagem ouviu dois estagiários que pediram para não ser identificados. Uma estagiária relatou que seguia exercendo normalmente suas atividades no início de fevereiro quando, ao tentar acessar a rede interna da instituição, foi informada pela área de Tecnologia da Informação de que seu nome constava como desligado. Segundo o depoimento, ao procurar o RH, foi informada de que o desligamento havia sido comunicado ao CIEE em 26 de janeiro, com data administrativa retroativa a 31 de dezembro, sem comunicação prévia.

Outro ex-estagiário afirmou ter formalizado pedido de rescisão em 12 de janeiro por meio de ofício protocolado na Câmara. Segundo o relato, o RH informou que comunicaria o CIEE, mas não houve retorno formal. Posteriormente, teria sido informado de que constava como exonerado no final de dezembro. O estagiário afirma que parte dos dias trabalhados após o pedido de desligamento não teria sido considerada no pagamento final.

Posicionamento do CIEE

Procurado pela reportagem, o Centro de Integração Empresa-Escola do Rio Grande do Sul informou que realizou o processo padrão de contratação de estagiários para a Câmara de Vereadores de Pelotas. A entidade declarou que, até o momento, não foi acionada pelo Ministério Público e que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos referentes às etapas sob sua responsabilidade.

Presidência atual e gestão anterior

O atual presidente, Michel Promove (PP), informou que a Câmara foi formalmente questionada pelo Ministério Público em 15 de janeiro de 2026, em relação ao exercício de 2025. Segundo ele, a atual Mesa Diretora está há pouco mais de 30 dias à frente da gestão e não integrava a condução administrativa da Casa no ano passado. “Estamos há pouco mais de 30 dias à frente da presidência da Câmara, em nosso primeiro mandato à frente da Mesa Diretora, e não fizemos parte da Mesa em 2025. Desde que assumimos, estamos enfrentando todas as questões”, afirmou.

A presidência não detalhou os procedimentos adotados quanto à divulgação de lista nominal de estagiários, supervisão formal, controle de frequência ou critérios para o registro das exonerações com efeito retroativo.

Por outro lado, o ex-presidente Carlos Júnior (PSD) declarou que “o setor jurídico da Câmara tem ciência do processo e irá responder ao Ministério Público todos os questionamentos que foram feitos”.

Desdobramentos

A Câmara tem prazo até 14 de fevereiro para encaminhar ao Ministério Público a documentação solicitada no ofício expedido no âmbito da Notícia de Fato. Após o recebimento das informações, o promotor responsável deverá analisar se os documentos apresentados são suficientes para esclarecer os pontos levantados na denúncia. Caso considere os esclarecimentos adequados, o procedimento pode ser arquivado.

Se o MP entender que há inconsistências, ausência de documentos ou necessidade de aprofundamento da apuração, poderá virar um inquérito civil, etapa que permite a realização de diligências mais amplas, requisição de novos documentos, oitivas e eventual responsabilização administrativa.

Também é possível que o órgão proponha recomendações administrativas à Câmara ou celebre termo de ajustamento de conduta, caso sejam identificadas falhas que demandem correção. Até o momento, não há conclusão sobre irregularidades.

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